Comportamento

Figurinhas para figurões

Da redação com colaboração de Leonardo Bonassoli
30/05/2010 03:12
Agora, na iminência da Copa da África, a brincadeira alcançou um novo público, que já não usa calção. Lançada pela editora Panini, a publicação oficial do mundial de futebol virou febre entre pessoas de várias idades, que circulam desde o biarticulado Santa Cândida-Capão Raso até uma praça num bairro de classe média, que virou ponto de troca das figurinhas.
O estudante de administração André Finck, 23, está surfando nesta onda, que considera a extensão de um hábito da infância. O mundial foi o gatilho. “Quando se começa a fazer algo uma vez na vida, acaba-se fazendo sempre. Estou colecionando porque é Copa do Mundo e gosto de futebol”, diz.
Amigo de Finck, o administrador Diego Lopes, 26, é veterano nesta mania. Ele coleciona álbuns de Copa do Mundo desde 1990, quando o torneio foi jogado na Itália. “Acho que é mais prazeroso colecionar o álbum tendo mais idade. Gosto de futebol e acompanho os campeonatos europeus. Antecipa o clima da Copa e traz um pouco da infância de volta,” afirma.
E se na infância as figurinhas são compradas com o dinheirinho da mesada ou do troco do pão, os novos “viciados” nos álbuns saem na frente por causa do maior poder aquisitivo. “Agora a gente compra de montão, antes tínhamos de esperar ter o dinheiro para comprar um pacotinho. Tem gente que compra R$ 100 por mês em figurinhas. Tenho um amigo que, quando a galera começou realmente a comprar o álbum, só faltavam 15 figurinhas para ele completar o dele,” conta o publicitário Túlio Bra­­­­gança, 28, que já é cliente em potencial do álbum do Cam­­­peonato Bra­­­sileiro, ainda sem lançamento confirmado.
Interação social
Em tempos de internet, a mania de colecionar figurinhas formou uma gigantesca rede social que, curiosamente, reúne as pessoas in loco e não apenas por meio da tela do computador. Com tanta gente colecionando o mesmo álbum, os encontros para a troca das repetidas virou programa de sábado à tarde, desculpa para aquela cervejinha e até encontros rápidos durante o expediente. “Aqui no trabalho, a ‘homarada’ fica trocando figurinhas. Esses dias, fui ao shopping trocar com um amigo. Foi curioso: um monte de gente em volta. Imagino o que eles estariam pensando, se achavam legal ou estranho dois barbudos trocando figurinhas”, diz Bragança.
“Revejo amigos que não via há muito tempo. Dia desses, fomos num bar fazer um happy hour e trocar figurinhas. Tenho amigas de 23, 24 anos também colecionando”, conta Lopes, lembrando que não é só entre os homens que a moda pegou.
Outra curiosidade da atual febre é que as trocas de figurinhas acontecem entre pessoas de idades bem diferentes. Em alguns casos, mais de uma geração de uma família coleciona o livro ilustrado. “Já troquei com um pai que tinha dois filhos e todos os três colecionavam. Esses dias, eu encontrei esse pai e ele contou que castigou os filhos por fazerem bagunça. A punição: ficou uma semana sem comprar figurinhas para eles”, conta Lopes, que não tem filhos, mas revela que pretende levar o hábito de colecionar figurinhas para seus futuros “herdeiros”.
Motivo de aposta
A mania de colecionar figurinhas desperta o espírito de competição entre as pessoas. A obsessão é tanta que tem gente que chega a apostar quem vai terminar o álbum primeiro. André Finck se deu bem ao conseguir completar o álbum da Copa do Mundo em apenas três semanas, o que deu uma “amortizada” nos gastos da empreitada. “Fiz uma aposta com amigos de que completaria o álbum antes da Copa e ganhei R$ 40 reais. Se soubesse que ia conseguir, teria apostado mais alto”, diz o universitário.