Comportamento

Filha de Pato…

Danielle Brito - danielles@gazetadopovo.com.br
30/08/2009 03:08
no dicionário dá nome à ave, no mundo do vinho Pato é um sobrenome sinônimo de tradição. Luis Pato, 61 anos, é um dos mais respeitados vinicultores portugueses. Sem herdeiros homens, ele teve três filhas. Uma delas, Filipa, 34 anos, seguiu os passos do pai e hoje é considerada uma legítima integrante da nova geração de vinhateiros. Formada em Química, antes de se estabelecer como produtora, estagiou em vinícolas da Austrália, Argentina e Bordeaux (França).
Em sua visita anual ao Brasil, nos encontramos com a jovem mãe de Francisco (7 meses), casada com o sommelier belga Wil­­liam Wouters, com quem assina os Vinhos Doidos – ainda inéditos no Brasil – e faz planos para comprar uma nova propriedade na região natal, a Bairrada, em Por­­­tugal, de onde sairão novos vinhos.
Na sala de produtos da Porto a Porto, em Curitiba, importadora dos vinhos de Filipa Pato no país, ela nos contou com o indefectível sotaque português um pouco de seu nada previsível cotidiano.
“O ciclo é anual e não diário. Todos os anos a natureza obedece um ciclo, que nem sempre se repete da mesma forma. Portanto, todo ano é diferente. Há períodos, como no inverno, em que a vinha está mais calma, e eu aproveito para viajar. Na primavera, fico mais tempo na vinha até a colheita. Depois tem a fermentação e o estágio em madeira. Isso demora meses. Não é uma coisa que entra de um lado e sai do outro já pronto”, conta.
Filipa cresceu entre videiras e barricas de madeira. Desfia agradáveis memórias da infância: os aromas produzidos pela fermentação, as uvas crescendo na videira, toda a balburdia da colheita, a casa sempre cheia de enófilos de vários países… Nem se lembra quando foi a primeira vez que provou um vinho – uma paixão que ela cultiva diariamente nas refeições. “Para mim, o vinho está muito enraizado na gastronomia. Essa é uma visão do Velho Mundo. Para nós, comer é sinônimo de beber. O vinho nos liberta da pressão diária. Quando bebo um vinho, crio novos projetos, ideias surgem. O consumidor deve sentir que o vinho é uma coisa agradável, não técnica, que reflete o terroir de onde vem.”
Apesar de viajar anualmente para o Brasil, Inglaterra, Bélgica e Estados Unidos e eventualmente para outros lugares levando sua marca, a única dica que Filipa arrisca aos iniciantes é provar vários rótulos. “O melhor vinho é o que mais lhe agrada. Depois de provar e gostar, procure na internet a história que está por trás de cada garrafa. Do vinho nunca se sabe tudo, há sempre coisas a explorar”, diz ela, que adora beber vinhos que não sejam de sua produção. Um inesquecível? Um madeira “fantástico”, safra 1870.
Parceria
A Filipa Pato é considerada uma adega-boutique por causa do controle de qualidade e do número reduzido de produção, de 65 a 70 mil garrafas por colheita. São seis rótulos atualmente no catálogo. Recentemente, Filipa e Luis Pato apresentaram ao mercado o FLP 2008, vinho branco que en­­trou na carta do restaurante The Fat Duck, na Inglaterra, considerado um dos três melhores do mun­­­do. “A vantagem de fazermos vinhos em adegas diferentes é que temos uma boa relação. Eu lhe dou mais ideias e ele me dá mais conselhos. Ele faz muitas apresentações em outros países, leva meus vinhos, e eu também apresento os vinhos dele”, conta. A parceria entre pai e filha reflete a revolução que o Velho Mundo promove em suas vinícolas em resposta aos mercados afluentes do Novo Mundo, como Austrália, Estados Unidos e Chile. “A Europa estava muito enraizada às tradições, o que é bom, mas também tinha a particularidade de não evoluir. E o fato de o Novo Mundo começar a produzir vinho fez com que o Velho Mundo acordasse e começasse a fazer vinhos adap­­­tados ao consumidor, mas também com caráter. Se não, qual seria a diferença entre tomar um argentino, um português ou um francês?”, questiona.
Se depender desta portuguesa obstinada, muitas boas safras ainda estão por vir. Em breve Filipa apresentará um vinho em homenagem ao filho, formulado para a degustação daqui há 20 anos. Saúde!