Comportamento

Igual a minha mãe

Érika Busani - erikab@gazetadopovo.com.br
06/11/2011 02:04
A psicanalista Cecília Scodeller de Campos explica que essa descoberta ocorre no início da idade adulta. Na infância, diz, as meninas costumam brincar de boneca repetindo exatamente o comportamento que suas mães têm com elas. Acham que os pais podem tudo. Na adolescência, fase de profunda transformação psíquica, começam a perceber que não é bem assim. Surge a necessidade de se afastar dos modelos paternos. Passado o turbilhão da puberdade, começa o retorno sobre si mesmas. É aí que a jovem se vislumbra igual à sua mãe. “É um susto. Sempre temos a ideia de que vamos fazer tudo diferente, mas percebemos que não é tão diferente assim”, afirma.
Para Cecília, o que assusta é o reconhecimento de pertencer a uma história. “É quando a pessoa se dá conta de que é fruto dessa relação familiar e de tudo aquilo que valorizou e que valorizaram nela.”
A grande pergunta é: por quê? “Primeiro porque somos, de fato, filhas da mãe”, brinca a terapeuta e consteladora familiar sistêmica Elza Vicente Carvalho. “Estamos sob essa influência direta. A presença da mãe na nossa vida é muito forte e importante. O que ela diz e faz deixa marcas sensoriais profundas na gente.”
O segundo motivo seria o vínculo afetivo. “É o nosso primeiro modelo de relação com o mundo”, lembra. E uma herança. “A forma como somos cuidados, tocados, vai ser muito parecida com o que a mãe dela fazia.”
Essa cadeia é visível para a jornalista Taysa Dias, de 23 anos. “Minha mãe traz até hoje coisas da minha avó, embora tenha saído de casa aos 12 anos. Ela repete pensamentos, no que acredita e passa para nós.” Fátima, 48 anos, mãe de Taysa, concorda. “Repito frases que minha mãe falava. Me vejo bastante parecida com ela e vejo a Taysa muito parecida comigo.” Tão parecida que Taysa certa vez teve de olhar novamente quando seu rosto se refletiu no vidro do ônibus. “Achei que tinha visto minha mãe”, conta. E ela não reclama, pelo contrário: “Tenho orgulho de me parecer com ela”.
Da infância
Para a neurociência, são dois os motivos da repetição de comportamentos: a genética e a convivência. “Quando nascemos, nosso cérebro está em formação. E o que fazemos é uma predisposição baseada no que pai e mãe nos transmitiram pelo DNA. Além disso, temos a interação com o meio ambiente. Novamente, a principal influência são os pais”, explica o professor do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Naim Akel Filho, coordenador do grupo de estudos em neurociência.
A primeira infância – fase que vai até por volta dos 5 ou 6 anos – é o período mais vital de formação da personalidade. “Os pais são filtros entre o mundo e nós. É influência para a vida toda.” Na segunda infância, que vai até o início da adolescência, o menino se volta para o pai, enquanto a menina continua sob o modelo da mãe. Por isso que as mulheres reproduzem mais o exemplo materno.
O que não é problema nenhum quando nos identificamos com ele. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes nos pegamos perpetuando comportamentos com os quais não concordamos. “Toda essa modelagem e imitação são incorporadas e ficam no inconsciente. Só vai cair a ficha de que estamos repetindo histórias, na idade adulta. E ainda assim, só algumas pessoas percebem”, diz Akel Filho. “Repe­­timos o que não gosta­­ríamos pela força do vínculo”, complementa Elza.
O padrão já foi motivo de desentendimentos para a professora Ilse Müller, de 54 anos. “Minha mãe é controladora e eu era assim também. Isso me irritava, causou brigas entre a minha irmã e eu. Se eu fosse mais compreensiva, não criaria conflitos”, conta. Ilse também percebe que reproduziu a impaciência da mãe com a filha, Morena, 29. “Na época em que ela era criança, eu não percebia. Hoje jamais eu faria isso.” Ultimamente, diz, está se controlando e buscando autoconhecimento para mudar. E reconhece que muitas coisas boas vieram da mãe, como o dom de fazer trabalhos manuais e a independência.
Rompimento
O que Ilse quer é possível. É preciso, no entanto, ter consciência para mudar. “O cérebro tem neuroplasticidade, que é a capacidade de ampliar, modificar ou transformar qualquer uma das funções mentais-cerebrais. Po­­demos ter controle absoluto sobre o nosso comportamento. Inge­­nua­­mente, achamos que nascemos com a personalidade formada e vamos agindo no embalo, sem saber por quê. Na verdade, escrevemos a história da nossa vida diariamente”, afirma o neurocientista.
“A grande maioria faz igual. Mas há crianças que conseguem sobreviver a mães abusivas e fazer diferente, porque a dor do sofrimento dá essa oportunidade”, explica Elza. Esse rompimento pode ser feito com ou sem a ajuda profissional. “Na teoria, qualquer um pode mudar. Na prática, a mudança é mais fácil, rápida e profunda, com orientação. A psicoterapia ajuda, mas não é indispensável”, diz Akel Filho.
A assistente social Silmara do Rocio Claudino, 44 anos, decidiu fazer igual porque gosta da referência. “Para mim é: que bom, estou ficando igual à minha mãe! Sabe aquela história de ‘você quer ser feliz ou ter razão’? Quando eu era jovem, queria muito ter razão e minha mãe sempre teve essa sabedoria: quero ser feliz”, conta. “Aprendi a dar a dimensão que as coisas têm.”
Outro comportamento que Silmara “copia” de Rosi, 67 anos, é demonstrar seu carinho pelas pessoas por meio da comida. “Não é só um alimento para o corpo, mas para a alma. Estou no caminho de chegar no padrão dela.” Até a crítica que fazia à mãe na adolescência, por servir o prato do irmão, arrefeceu. “Hoje me vejo fazendo o mesmo para o meu filho (Lucas, 17 anos). Re­­­produzo e entendo por quê. É um gesto que diz ‘eu me importo com você.”
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Interatividade
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