Comportamento

O enigma da mulher inteligente que pouca gente conseguiu solucionar

Redação, com informações da Agência Estado
09/03/2017 08:41
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Estudo mostra que a partir dos 6 anos, mulheres tendem a achar que homens são mais inteligentes. Foto: Bigstock

Um texto que circula nas redes sociais está provocando uma interessante discussão sobre como as pessoas enxergam a competência das mulheres. O jogo é o seguinte: “Pai e filho sofrem um acidente terrível de carro. Alguém chama a ambulância, mas o pai não resiste e morre no local. O filho é socorrido e levado ao hospital às pressas. Ao chegar no hospital, a pessoa mais competente do centro cirúrgico vê o menino e diz: ‘Não posso operar este menino! Ele é meu filho!”
Quem seria “a pessoa mais competente”? As respostas foram do avô do garoto a uma relação homoafetiva, mas pouca gente respondeu o óbvio: a pessoa mais competente do centro cirúrgico seria a mãe do garoto. A dificuldade, para muitos leitores, está no fato de que as pessoas não associam imediatamente a competência ao papel feminino.
Na página “Quebrando o Tabu”, onde o enigma foi publicado pela primeira vez antes de ter sido compartilhado milhares de vezes, uma leitora questiona: “Por que automaticamente pensamos que a pessoa mais competente do local seria um homem e não uma mulher, mãe do menino?”, questionou uma leitora.
A discussão continua: “A maioria das pessoas só consegue pensar que um homem seria o cirurgião, então não entendem como poderia ser se o pai do menino está morto”. O texto foi teve quase 100 mil compartilhamentos até agora.
Inteligentes são os homens? 
Além de histórica, essa dificuldade em associar imediatamente fatores como inteligência e competência à mulher pode ser explicada por uma pesquisa americana divulgada recentemente que afirma que crianças a partir de 6 anos tendem a achar que homens são mais inteligentes que mulheres.
Meninas e meninos de cinco anos escutaram uma história sobre uma pessoa “muito, muito inteligente”. As crianças não recebem nenhuma dica sobre o gênero dessa pessoa, mas quando são requisitadas a adivinhar quem é o protagonista, com base em fotos de dois homens e duas mulheres, meninas e meninos tendem a escolher igualmente alguém do próprio gênero.
A partir dos seis anos, porém, essa identificação começa a diminuir, pelo menos entre as meninas, o que pode indicar que é nessa idade que estereótipos sobre gênero começam a aparecer.
É o que mostra um estudo de pesquisadores das universidades americanas de Nova York, Illinois e Princeton publicado na quinta-feira, 26, na revista Science. O grupo, liderado pela estudante de doutorado Lin Bian, da Universidade de Illinois, investigou o comportamento de crianças de 5, 6, e 7 anos em relação a habilidades intelectuais e sugeriu que os estereótipos surgem cedo e têm capacidade de influenciar os interesses das crianças.
O trabalho envolveu uma série de testes. O primeiro foi o da inteligência. Depois, os cientistas checaram se essa percepção poderia afetar as escolhas. Outro grupo de crianças de 6 e 7 anos foi apresentado a dois jogos – um classificado como para crianças “muito, muito inteligentes” e o outro para as “muito, muito esforçadas”. O conteúdo, porém, era parecido.
Foram feitas perguntas para medir quanto as crianças tinham ficado interessadas nos jogos. Meninas se mostraram bem menos a fim que os meninos no jogo para crianças muito inteligentes, mas o interesse delas e deles foi similar no jogo para crianças esforçadas.
Depois os pesquisadores checaram se havia diferença nesse comportamento entre crianças de 5 anos e nas de 6. Novamente, meninos e meninas mais novos não mostraram uma diferença significativa nas suas escolhas, mas as garotas de 6 anos mostraram menos interesse que os garotos da mesma idade no jogo para crianças inteligentes.
Por fim, meninas e meninos tinham de adivinhar qual entre quatro outras crianças (dois meninos e duas meninas) tinham tirado as melhores notas na escola. Ao contrário dos outros três testes, neste não houve diferença significativa entre meninas mais novas e mais velhas em selecionar outras meninas como as com melhores notas.
A conclusão dos pesquisadores é que a percepção das meninas sobre o desempenho escolar não se traduz no sentimento sobre ser brilhante em alguma coisa.
“Nossa sociedade tende a associar genialidade mais com homens do que com mulheres e essa noção acaba empurrando as mulheres para longe de trabalhos que são percebidos como aqueles que requerem genialidade”, disse Lin Bian em comunicado distribuído à imprensa.
A ideia foi checar se esses estereótipos eram sentidos pelas crianças e esse teste sugeriu que sim, de modo a fazer até que as meninas evitem determinadas atividades.
Bian pediu para que se evite, porém, generalizações. O estudo foi feito com um grupo pequeno de crianças – 400 -, sendo todas americanas de classe média, em sua maioria brancas. Os pesquisadores sugerem que o teste seja estendido para outros grupos sociais, de diferentes cores e países, para checar se os estereótipos sobre genialidade são espalhados.