Comportamento

O mais importante dos Rs

Danielle Brito - danielles@gazetadopovo.com.br
28/09/2008 03:01
É possível consumir menos abandonando velhos hábitos? Em princípio, abdicar do aquecimento nos dias frios e do ar condicionado no verão, deixar o carro na garagem para percorrer pequenas distâncias a pé é o mesmo que abrir mão do conforto conquistado a duras penas com a evolução da tecnologia. Mas é preciso ser muito alienado para não ouvir os apelos que vêm da natureza, seja por manifestações da própria – efeito estufa, furacões, aquecimento global… –, seja por meio de seus porta-vozes ambientalistas. No ser ou não ser do homem urbano, há de se ter dois pesos e duas medidas. “A grande questão é consumir menos sem perder o conforto. Quanto mais desenvolvido o país, maior o consumo de energia, por exemplo”, diz Maurício Dziedzic, coordenador do mestrado em Gestão Ambiental da Universidade Positivo. Mostrada assim, no atacado, a equação parece mesmo difícil de fechar. Mas talvez seja no varejo dos gestos simples que as coisas podem efetivamente mudar.
Para escrever essa matéria fiz um laboratório no meu cotidiano e observei que não é tão difícil reduzir o consumo. Algumas atitudes exigem esforço físico extra e quebra da rotina, como ir para o trabalho caminhando. No meu caso, a opção acrescentou cerca de 50 minutos de caminhada diários e endorfinas grátis. “As pessoas associam a qualidade de vida ao conforto. Mas muitas vezes a idéia que têm de conforto é, na verdade, comodidade. É muito mais cômodo pegar o carro e ir para o trabalho”, diz a química Patricia Sottoriva, doutora em Biotecnologia e professora do curso de Engenharia Ambiental da Pontifícia Universidade Católica (PUCPR). Segundo ela, para que o cidadão aderisse à idéia de se locomover mais a pé, a cidade teria de estar preparada do ponto de vista de estrutura e segurança. E sugere a carona solidária como solução paliativa. “Assim, mantemos a comodidade, mas contribuímos de forma significativa para o meio ambiente”, afirma.
Gente como Patricia e Dziedzic ajudam a perceber o meio ambiente como parte da nossa vida. O professor conta que já viu um policial abaixar o vidro da viatura e jogar um papel amassado no meio da rua, que percorre o campus da universidade e observa bitucas e latas jogadas no chão e que quando corre pela manhã costuma ver o resíduo na sarjeta do que chama de “geração garrafa quebrada”. Imagino que você já tenha percebido problemas semelhantes no seu caminho. Mas ele também é capaz de citar uma dezena de atitudes nada “verdes” e bem menos óbvias. “Tem gente que imprime e-mail. É o fim da picada!”, dispara, para emendar: “Outros comem dentro do carro e descartam os restos junto com o saco de papelão. No fundo, tudo não passa de falta de bom senso e educação”.
Caixa ecológico
O consumo sustentável não implica deixar de consumir e sim consumir diferente. Calcula-se que um terço do lixo doméstico dos brasileiros é composto de embalagens. E o mau descarte de vidro e plástico, principalmente, pode provocar grandes prejuízos para a natureza. “A tendência é forçar os fabricantes a gerar cada vez menos embalagens”, diz Dziedzic. Em Curitiba, a unidade Barigüi do supermercado Festval implantou há dois anos o caixa ecológico, consolidando a tese de mestrado em gestão ambiental da aluna Dulce Albach na Universidade Positivo. Em um contêiner ao lado da registradora, é possível descartar, antes de levar para casa, embalagens, ou parte delas, que podem ser recicladas. O supermercado doa o valor obtido com a venda do material para instituições sociais. “Muitos clientes levam os produtos na embalagem para casa e voltam para descartá-las depois. Neste período já arrecadamos mais de 20 mil unidades de embalagens”, conta a gerente de marketing do supermercado, Jane Charla Sodré.
Como entrepostos de grande volume de embalagens, os supermercados ficam na berlinda. As sacolinhas plásticas – vilãs ambientais – já podem ser devolvidas em alguns deles. A maioria também incentiva o uso das sacolas de tecido. Na semana em que mantive o consumo sustentável em minha perspectiva, observei que ele nada mais é do que mudança de hábito. Dispensar menos lixo no meio ambiente, utilizar a água como um recurso esgotável, a energia de forma consciente, reaproveitar ao máximo as embalagens e descartá-las de forma correta não custa quase nada.
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Serviço
Caixa ecológico, Festval Barigüi, Rua Cândido Hartmann, 1.580.
O Instituto de Oftalmologia de Curitiba (IOC) encerra hoje a Campanha de Doação de Óculos. Podem ser doados óculos de grau, escuros e armações. A arrecadação é feita no Palladium Shopping Center, piso L1, em frente às Lojas Americanas. Fora da campanha, as doações podem ser feitas no Instituto, Av. Getúlio Vargas, 1.500.