Aquele que mora perto, compartilha histórias, o cheiro e os sons da rua. O substantivo vizinho soa fraternal, lembra o cotidiano de pessoas parecidas, que dividem o mesmo espaço na cidade. Mas não é sempre assim. Uma simples pergunta feita aos leitores do blog do Viver Bem – “Você gosta do seu vizinho?” – mostrou essa contradição de sentimentos em relação ao que mora próximo: desassossego, conforto, paciência.
E se algumas experiências são boas, motivos não faltam para confusão: o cachorro late sem parar, o lixo “escapa” para o lado de cá, a música incomoda, as obras não acabam na casa ao lado, ou as crianças – que insistem em ser crianças! – brincam debaixo da janela.
O doutor em Antropologia Social Paulo Guérios, professor da Universidade Federal do Paraná, cita o antropólogo Roberto Da Matta ao falar da relação entre vizinhos. No livro A Casa e a Rua, Da Matta fala como o homem age de forma diferente nos dois espaços. “É como se houvesse dois códigos de comportamento distintos: na casa os comportamentos são fundados na amizade, na lealdade, as pessoas estão abertas ao outro. É o universo do familiar. Na rua, ao contrário, é tudo impessoal, desconfiamos do outro por princípio e se necessário recorremos às leis ou a uma autoridade para mediar nossa relação com este outro”, diz.
A relação com vizinhos, diz o professor, por vezes é conflituosa em função dessa diferença de códigos entre o universo pessoal e impessoal. “Nos espaços comuns de um edifício, no muro que te separa do vizinho, você está em casa e não está ao mesmo tempo. É um espaço limítrofe. O vizinho, que está sempre ali junto de sua casa, de fato não pertence a ela.” A forma como esse relacionamento vai se desenvolver dependerá de a aproximação causar um sentimento ruim, de invasão da vida privada, ou, ao contrário, de familiariadade.
Para a psicologia ambiental, que estuda a relação na comunidade, pensar na convivência entre vizinhos é falar do mundo real e do ideal. “Quando o mundo idealizado é parecido com o real, fica tudo bem. Mas em sociedades mais conservadoras, como a nossa curitibana, infelizmente há dificuldade de convivência”, diz Maria Otávia d’Almeida, doutoranda em psicologia social e coordenadora da comissão de psicologia ambiental do Conselho Regional de Psicologia.
O crescimento da cidade, diz Maria Otávia, dificulta a aproximação. “Abrigar-se em edifícios só dificulta a relação entre vizinhos. Em casas, onde o muro define territórios, todos se cuidam e essa aproximação é mais fácil. Entre vizinhos de apartamento há mais isolamento, o que parece paradoxal: estão mais próximos, mas cada um vive por si”, diz.
Para reverter esse caminho individualista, a psicóloga defende políticas públicas que promovam organizações sociais nas quais se discutam problemas comuns, como violência.
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