Diego e Suellen Mazzolli sofreram, e ainda sofrem, a discriminação pelo peso, mas aprenderam a superar as dificuldades. Foto: Antônio More /Gazeta do Povo.
A escritora e blogueira Ana Paula Barbi, a Polly, costuma narrar na internet as situações em que sofre preconceito por ser gorda – a chamada gordofobia. Recentemente, ela contou em seu perfil do Facebook sobre um dia em que estava no mercado comprando ovos. Na ocasião, uma mulher se aproximou e advertiu: “Cuidado com o colesterol”. Polly rebateu: “Te perguntei alguma coisa?”.
O episódio pode surpreender pela reação da escritora, mas constrangimentos como esse são comuns na vida de pessoas gordas. “Muitas vezes a discriminação é disfarçada de preocupação com a saúde”, diz a escritora. A cena acima provavelmente não ocorreria com pessoas magras. “Essa discriminação estruturada e disseminada nos mais variados contextos socioculturais consiste na desvalorização, estigmatização e hostilização de pessoas gordas e de seus corpos”, diz.
Atendimento ríspido O preconceito nem sempre é sutil. “Fui comprar um presente para uma amiga em uma loja. Assim que entrei, a vendedora disse ‘não tem nada da sua numeração aqui’”, conta a fotógrafa Juliana Rybzinski, de 32 anos. Ela engordou 30 quilos na gestação de sua filha, e percebe que a forma de ser tratada mudou muito depois disso. “Agora o atendimento é ríspido. A discriminação é bem descarada.”
O mercado de trabalho é outra fonte de constrangimento para pessoas gordas. “Muitas vezes, você é mais qualificado do que quem é escolhido nos processos de seleção, mas não te contratam por essa questão estética”, conta Juliana. Certa vez, ela aguardava para fazer uma entrevista quando uma das garotas com quem concorria disse a outra candidata: “Dessa gorda eu ganho fácil, vamos ficar só nós.”
Repulsa à gordura De acordo com a psicóloga social e pesquisadora Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e autora dos livros Com que corpo eu vou? e O intolerável peso da feiúra, o prejuízo social sofrido por obesos tem origem na lipofobia – a repulsa à gordura – da sociedade contemporânea. “As pessoas têm medo de engordar, elas comem um brigadeiro e já pensam ‘vou ter que compensar no spinning mais tarde’”. Em uma cultura que diz que a gordura é uma doença e a criminaliza, a magreza torna-se um projeto moral e ser gordo torna-se uma “falha de caráter”.
“Você não tem o direito de ser gordo. Você é julgado, tem sua capacidade produtiva questionada, não passa em processos seletivos de emprego, tem dificuldade em ter parceiros amorosos, tem sua sexualidade negada”, diz.
Muitas mulheres gordas reclamam que não existem lingeries para elas. “Quando tem, é uma fralda com renda”, diz Joana, que afirma que a intolerância em relação à gordura faz com que as pessoas discriminem os gordos sem culpa. “É uma discriminação socialmente validada”, fala.
A fotógrafa Juliana Rybzinski engordou após a gravidez e viu mudar o tratamento nas lojas. Foto: Acervo Pessoal.
Gordos, juntos, felizes A professora da rede pública municipal Suellen Rodrigues de Oliveira Mazzolli, 28 anos, e o bancário Diego Lima Mazzolli, 31, se conheceram há dois anos e trocaram alianças no último junho. Desde a infância, foram alvo de preconceito por não se adequarem ao padrão magro de beleza. “Quando eu era criança, sofria muito bullying”, conta Diego. As coisas melhoraram quando o rapaz decidiu enfrentar as provocações e aprendeu a se defender.
Suellen também criou estratégias para lidar com a gordofobia durante a vida. “Sou professora e já aconteceu de algum aluno me olhar torto e fazer um comentário em relação ao meu peso, e não à minha pessoa. Levo na esportiva, se eu ficar me preocupando com isso não faço mais nada”, diz.
Linguagem e mídia A socióloga e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Carolina Ribeiro explica que a palavra gordo pode ser usada de forma pejorativa, mas que o termo tem sido modificado e usado pelo movimento de orgulho gordo, também chamado de Fatkini – mulheres gordas de biquíni –, como uma forma de celebração positiva dos corpos. “Hoje, quando falam que estou gorda, eu agradeço, porque acredito que ser gorda é mais uma das minhas características que merecem ser celebradas.”
Contra a obesidade, não contra os gordos A luta contra a discriminação sofrida pelos obesos é legítima, mas a obesidade deve continuar a ser combatida, segundo o médico especialista em cirurgia bariátrica Giorgio Baretta, do Hospital Vita Batel, por estar relacionada a uma série de doenças. “Essas enfermidades são as chamadas comorbidades: a hipertensão arterial, o diabete melitus, a apneia do sono, o colesterol e triglicerídeos elevados e os problemas articulares relacionados ao peso”, enumera.
A psicóloga social e pesquisadora Joana de Vilhena Novaes acredita que um caminho para tratar a obesidade como questão de saúde pública de forma não preconceituosa seria oferecer uma abordagem humana. “Um dos caminhos é focar na qualidade de vida, não na estética. A classe médica tem um olhar pouco empático, pouco generoso em relação ao gordo. Já ouvi um médico renomado dizer em público que não tem paciência para ‘mimimi’ de obeso que não quer fazer atividade física. O ‘approach’ não pode ser esse, acredito que a epidemia de obesidade se combate acolhendo”, diz ela.
Movimento Fatkini celebra positivamente o corpo gordo e tornou-se um símbolo da luta contra a discriminação. Divulgação.