Comportamento

Por dentro dos coletivos: conheça três grupos que se debruçam sobre diferentes discussões

Carolina Kirchner Furquim, especial
03/08/2016 14:02
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As meninas cervejeiras do Coletivo ELA: refutar rótulos e comportamentos machistas presentes no universo das cervejas é um dos objetivos (Foto: Divulgação)

Um espaço para enriquecer discussões sobre os mais variados assuntos e aproximar pessoas. Este é o conceito básico dos coletivos, ou grupos de pessoas que pensam o mundo sob diferentes perspectivas e de forma autogerida e descentralizada. Ainda que sejam organizados de maneiras diferentes, têm em comum a contribuição voluntária, a empatia e solidariedade, a abertura a quem se identifique com as temáticas discutidas, o incentivo ao debate e a realização de ações de intervenção. “Os coletivos têm caráter de insurgência e se posicionam contra representações políticas e instituições de modelo tradicional, já que não se reconhecem nelas. São grupos que obtiveram grande repercussão com a ajuda das redes sociais, especialmente depois dos protestos nacionais de 2013”, explica do professor de sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Cezar Bueno de Lima.
Mesmo que vivam um momento de grande força, o professor diz não ser possível, ainda, dimensionar o impacto dos coletivos e seus efeitos sobre mudanças estruturais. “Percebe-se que a dialética que tinha grande repercussão virtual já tem implicações no mundo real. Mas os grupos não nascem com pretensões de conquista, nem de reproduzir relações de poder. Eles são flexíveis, voláteis, questionadores, atuais e se debruçam sobre pautas contemporâneas”, analisa o professor.
O Viver Bem mergulhou no universo de três coletivos autênticos e muito ativos em temáticas diferentes. Conheça um pouco do trabalho destes grupos que, segundo Bueno, representam uma nova forma de atuação, têm alto poder de visibilidade na cena nacional e internacional e vieram pra ficar.

Assunto de mulher

São quase 130 mulheres inseridas no universo das cervejas artesanais que participam do Coletivo ELA, que começou como uma resposta aos rótulos e comportamentos machistas tão presentes no universo cervejeiro. “Nos unimos em um grupo no Facebook e começamos a bolar como seria. Nossa ideia é abrir espaço para mulheres no meio cervejeiro, criando caminhos igualitários na área e, principalmente, respeito, seja na parte de criação de receitas, produção, como sommelières ou consumidoras. Trabalhamos em um meio às vezes muito sufocante e desconstruir isso dia após dia abre espaço para nós e para as que estão por vir”, diz Larissa Paschoal, uma das idealizadoras.
Foto: Divulgação Coletivo ELA
Foto: Divulgação Coletivo ELA
As participantes moram em diferentes estados e são mestres cervejeiras, sommelières, professoras, juízas de concursos, apreciadoras, empresárias e especialistas na bebida. “Temos cabeças de grupo responsáveis em cada estado e conversamos quase sempre via Facebook. Muitas de nós se conhecem pessoalmente porque o mercado cervejeiro é minúsculo, então acabamos entrando em contato umas com as outras até mesmo antes do ELA surgir”, explica Larissa. Através da segmentação por região, elas criaram novos núcleos estaduais de mulheres (como o “Ceva das Minas”, no RS), o que torna mais fácil a organização do grupo.
Para celebrar o coletivo, elas decidiram produzir um rótulo exclusivo. Juntas, assinam o estilo, a receita, o nome, a identidade visual e a fabricação. Chamada “ELA”, a cerveja tem o estilo American Barley Wine e inspiração inglesa, mas com amargor mais acentuado em comparação à sua versão original. Afinal, a ideia é fugir do estereótipo de que mulher gosta apenas de cervejas de sabor leve e adocicado. O lançamento nacional está previsto para o dia 20 de agosto, em São Paulo, e a cerveja chega a Curitiba no dia 3 de setembro. Toda a renda obtida nos lançamentos será destinada a ONGs locais que ajudam mulheres de alguma forma. O coletivo também realiza ações afirmativas no meio, como cursos e palestras (sempre ministradas por mulheres), para abrir a discussão também fora das redes virtuais. E as meninas do ELA já desenham o futuro: querem criar, produzir e lançar outros rótulos de sua bebida preferida.
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A casa é sua

Dez amigas, uma casa e uma ideia: organizar encontros e eventos para que as pessoas se conheçam, troquem experiências e movimentem a cena cultural. À frente do Coletivo Ocitocina, que existe há um ano e cujo nome faz referência ao hormônio que melhora as capacidades amorosa e empática, estão Carolina Melo, Marília Dissenha e Carolina Goetten. “Nós três moramos na mesma casa, que tem as portas abertas para quem deseja promover eventos e divulgar seus trabalhos artísticos, populares e independentes. As outras sete meninas atuam de maneira pontual”, explica Carolina Melo.
O coletivo cultural das garotas não tem fins comerciais, é flexível e democrático, mas traz uma única exigência: os eventos “sediados” na casa, que fica no bairro São Francisco, devem ter uma afinidade mínima com os ideais do grupo. “A casa é livre para quem quiser falar e fazer arte, comida, música e shows. Não cobramos “aluguel” nem entrada, apenas uma taxa de limpeza. Porém, conversamos bastante com os organizadores para entender a ideia, a dinâmica e ver se estamos em sintonia. Afinal, é onde moramos”, completa Carolina.
Foto: Mariana Alves
Foto: Mariana Alves
O Ocitocina não trabalha com um calendário fixo, mas estima-se que aconteça, pelo menos, um evento por mês, seja ele grande ou intimista. “A ideia é que as pessoas circulem, se encontrem, conversem, troquem contatos e comemorem a vida, ao mesmo tempo em que ajudamos a dar visibilidade às atividades de pessoas que estão fora da redoma cultural”, diz Carolina. Ainda que não levante nenhuma bandeira, a existência do coletivo acabou por jogar luz também à questão do feminismo, que se tornou uma pauta correlata. “Nos reunimos para bater papo e curtir a companhia umas das outras. Com isso pudemos fortalecer a rede e mostrar coisas fantásticas que vêm sendo produzidas por mulheres nas mais variadas áreas”.

Para debater e saborear

Há um ano, um projeto de prototipação de um novo serviço foi a semente do que é hoje o Coletivo Alimentar, do qual fazem parte dezenas de pessoas, entre baristas, cozinheiros e empreendedores de marketing gastronômico. “O projeto inicial durou três meses. Depois de outros três meses de reforma, reabrimos colocando em prática o que foi testado lá no início”, diz o empresário e idealizador do coletivo, Luiz Mileck. Há um conselho de quatro pessoas que fazem parte desde sempre, cujas atribuições incluem responsabilidade institucional e administrativa, operação do café, marketing, imagem da marca e redes sociais. “Há também um padeiro especializado em fermentação natural e uma pessoa responsável pela curadoria dos serviços e produtos, que atuam diariamente”, completa Mileck.
Um dos destaques é a agenda randômica: por lá, almoços executivos e brunch ganham, a cada semana, a assinatura de um chef diferente, que tem a missão de criar pratos dentro de temáticas pré-estabelecidas (segunda sem carne, terça pelo mundo, quarta bistrô da feira, quinta pelo Brasil e sexta bicho do Paraná). Os nomes deixam algo para a imaginação, mas o cardápio é sempre uma surpresa.
Foto: Ivonaldo Alexandre
Foto: Ivonaldo Alexandre
Como todo bom coletivo, o conceito passa pela convivência e debate. Neste caso, é claro, sobre comida. “Somos um laboratório de inovação social voltado ao estudo da cultura alimentar. Nosso objetivo é fomentar produtos e serviços pela cidade e, através da nossa rede e estrutura, viabilizar novos projetos alimentares por aqui”, diz o empresário. Em resumo, funciona como uma cafeteria, padaria e restaurante, mas “sem ser nada disso”, assinala Mileck. Além dos escritórios colaborativos, da mercearia e do espaço para cursos e eventos que compõem o coletivo, a previsão é de inaugurar, em breve, uma cozinha colaborativa e um terraço alimentar. Enfim, um lugar para comprar, conversar e aprender sobre comida.