Comportamento

Por um mundo mais “verde”

Rodolfo Stancki
15/09/2013 03:04
O plano foi concretizado entre julho e agosto deste ano, em um bairro próximo ao centro de Curitiba. Na casa, que fica nos fundos do terreno de uma amiga, ela, aos 19 anos, vive com o namorado, o estudante de artes plásticas Danilo Garcia, de 23 anos.
O casal ergueu a residência com material reaproveitado de outras construções e barro amassado. A iluminação diurna é potencializada com garrafas de vidro transparente inseridas na parede. Os móveis e os utensílios domésticos vieram de doação. A única coisa nova é o encanamento, presente da avó dele.
Pela consciência ecológica, o casal não usa carro e recicla o que consome. Nos planos, há uma horta, para comer o que plantarem. “Temos tudo que precisamos para uma vida em plenitude”, diz Maria, que trabalha na cantina de uma escola e economiza praticamente tudo que ganha para comprar seu próprio terreno no futuro. A casa em que vivem hoje ainda não é uma construção regularizada na prefeitura, algo que os dois lutam para resolver em breve.
Em um momento em que a emissão de gás carbônico no mundo atinge 71,6 bilhões de toneladas como em 2012, segundo dados do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a casa dos jovens namorados pode servir de incentivo para quem deseja adotar um estilo de vida ecologicamente mais responsável. É claro que nem todos precisam seguir esse exemplo na íntegra, mas tudo o que puder ser feito para controlar o impacto do homem na natureza é bem-vindo. “As pessoas precisam entender que o mundo não vai aguentar o estilo predatório de consumo que levamos hoje. Precisamos mudar de postura”, alerta José Fernando Arns, professor de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e doutor em Gestão Ambiental.
O austríaco Fritjof Capra conceitua essa mudança de pensamento como um “ponto de mutação”, em seu livro homônimo. De acordo com o autor, o modo mecanicista e industrial de desenvolvimento do século 20 não será possível no futuro, pois ignora que a sociedade e o meio ambiente formam um único sistema.
“Precisamos cuidar do legado que vamos deixar para as futuras gerações, seja ao separar o que jogamos no lixo, reduzir o tempo no chuveiro, fazer compostagem e plantar árvores”, observa Arns. São pequenas ações que, se realizadas por um grande número de pessoas, podem fazer diferença no planeta.
Comportamentos
A empresária Erminia Fineschi (foto 3), 35 anos, mudou a maneira de agir depois de uma viagem a Alemanha, há dez anos. Percebendo que, em Berlim, a maioria das pessoas usava sacolas retornáveis, ela decidiu trazer o costume para o Brasil. Em pouco tempo, o cuidado com o uso de sacos plásticos foi ampliado para o destino das pilhas e remédios. Depois ela parou de usar copos descartáveis e, quando foi mãe de Maria Augusta há quatro anos, decidiu congelar porções de comida para não desperdiçar. A ideia acabou agradando os vizinhos, que começaram a pedir suas receitas. Erminia viu na sua ação ecológica uma possibilidade de negócio: vender comida orgânica congelada. A Organic Lovers foi inaugurada em março de 2012.
A decoração da loja é feita com móveis de demolição e o prédio tem cisternas para aproveitar a água da chuva. Para manter seu estilo de vida, ela vende fraldas de pano, usa sacolas biodegradáveis e combate ao máximo o desperdício. O comportamento acaba incentivando as pessoas mais próximas. “Tenho amigas que não conseguem mais usar sacos plásticos”, conta a empresária. Afinal, o comportamento sustentável também é contagioso.
“Quando as pessoas à nossa volta veem que estamos mudando, isso cria uma cultura de contribuição para o meio ambiente”, diz o empresário Rodrigo Rocha Loures, autor do livro Sustentabilidade XXI – Educar e Inovar sob uma Nova Consciência. Segundo ele, é importante que as ações ambientais provoquem reflexão nas pessoas ao seu redor.
Outro que não precisou alterar muito seu estilo de vida depois de adotar uma ação mais “verde” foi o empresário Cristian Trentin (foto 4). Há três anos, ele trabalhava como programador numa empresa de tecnologia, tinha um carro e uma moto. Nunca foi ligado a preocupações ambientais. Mas a oportunidade de negócio o levou a adotar a bicicleta como meio de transporte.
Trentin é dono da Eco Bike Courier, empresa especializada em entregas a pedaladas. Depois de fundar a empresa em 2012, ele vendeu o carro e a moto para promover o espírito do empreendimento. Acabou gostando do novo hábito. “Evitar o trânsito me deixou bem menos estressado”, revela.
Em três anos de empresa, ele calcula que retirou 8 toneladas de gás carbônico do planeta. “É pouco. Ainda faremos bem mais que isso.” Se todos pensarem assim, a mudança para um mundo sustentável vai ser rápida.

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