
Caso ainda não tenha reparado que a sociedade está vivendo um momento violento e de ódio coletivo, abra suas redes sociais, especialmente o Facebook. Se lá não houver nenhum tipo de conflito, veja pela janela da sua casa o condomínio fechado onde vive. A figura do outro – a outra pessoa que pensa diferente, que vive diferente, que tem experiências diferentes – está hoje muito distante de você, e isso não é bom para a tolerância e aceitação na sociedade. A solução, porém, parece simples e se resume a ato de conversar, ou a palavra, como explica Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista e professor catedrático da USP, que esteve em Curitiba no sábado (1) para uma palestra no 1º Congresso Brasileiro de Psicologia da FAE sobre ‘A cura pela palavra hoje, brasilidade e psicanálise‘. O Viver Bem conversou com o psicanalista e descobriu que, para retomar o diálogo, ainda precisamos encontrar o caminho certo. Confira!

Quando se fala em cura pela palavra, o que isso significa?
A primeira ideia é lembrar que a noção de cura não é uma noção médica, como em geral as pessoas pensam. A cura tem sua origem em uma experiência filosófica e envolve uma relação pela palavra de reflexão, crítica, de reinvenção dos nossos modos de nos assujeitarmos ao poder. A nossa fascinação pela servidão voluntária, pela obediência, pode deixar de pensar e transferir nossa decisão para o outro. A nossa época é contrária a essa experiência de cura. A cura hoje aparece como uma solução dos sintomas, como a gente vê na medicina, ou como algo religioso. Mas a cura tem outro sentido, e é uma espécie de crítica pequena, cotidiana, da presença do poder nas nossas vidas. O poder entre a empregada e a patroa, entre o professor e o aluno, entre o médico e o paciente. No fim, a cura mesmo é você se libertar do seu desejo de obedecer.
Podemos trazer essa ideia para um contexto político? Hoje vemos a sociedade pedindo por uma ordem, por uma ideia de poder imposto, como foram os desejos de grupos durante as manifestações sobre o impeachment por uma intervenção militar.
Estamos em um momento que exige agudamente a palavra. As divisões que vivemos, o ódio coletivo, o nível de intolerância social em todos os níveis – e da consequente violência. Você suspende a possibilidade de falar com o outro, você reduz o outro a um ‘coxinha’, branco, negro, pobre ou rico, evangélico, católico. Esse tipo de divisão acusa violentamente a falta da palavra. A palavra é essa forma de conseguir reconhecer no outro uma parte de si, uma parte do outro. É pela palavra que tratamos o conflito social, o antagonismo, o ódio. É pela palavra que a tratamos toda forma de intolerância, e o que acontece no Brasil hoje reflete um déficit na nossa potência de falar, de conversar com o outro, no sentindo mais simples e trivial, e isso acontece na mídia, na academia, nas ruas, nos partidos, nos projetos de Brasil.
Isso poderia ser reflexo, também, das redes sociais? Dentro delas criamos nossos mundos, e os algoritmos das redes, como o Facebook, permitem que fiquemos fechados entre pensamentos parecidos aos nossos.
Sim, exatamente, é um condomínio. Quando começaram os condomínios no Brasil? Nos anos 1970, foram contemporâneos à ditadura. Essa ideia de condomínio, de se fechar, de colocar um muro, é uma resposta social ao diferente. Tem ricos e pobres, como vamos negociar essas diferenças? Não vamos negociar, vamos colocar um muro, e eu nem vou olhar para você, que será ‘invisível’ para mim. E quando eu torno o outro invisível, eu começo a fabular que você é muito mais perigoso do que de fato é, monstruoso e problemático. Eu paro de conversar, eu substituo a palavra por um ajuste da realidade e então reduz a realidade e seu mundo vai ficando cada vez menor. Aí então não tem conflito, e o resultado: desaprendemos a fazer política. No fundo, a psicanálise a política tem uma emergência comum, que é a ideia de tratar o conflito pela palavra. Mas ninguém diz isso. No Brasil, a solução que as pessoas encontram é fazer mais prisões (que são um tipo de condomínio), mais polícia. Chega uma hora que o antagonismo social vai aparecer de uma forma bizarra, como uma luta de todos contra todos, particulares contra particulares, mulheres contra homem, branco contra negro, e é isso que estamos vivendo.
Qual seria a tendência para o futuro, com mais redes sociais, mais exclusão do outro? As pessoas vão conseguir retomar a palavra?
Há uma grande expectativa social para isso, mas não sabemos direito de onde isso virá. Os responsáveis, por assim dizer, profissionais para fazer isso são a mídia, que se partidarizou, passou a representar interesses de A ou B, ou é percebida dessa forma; os intelectuais, que foram reduzidos a uma turma de esquerda; e os professores que, quando tentam falar, introduzir uma palavra que ajudariam as pessoas a lidarem com as diferenças, são atacados. Estamos bloqueando aqueles que seriam nossos recursos naturais para lidar com os conflitos.
A solução não poderia surgir da própria sociedade?
O que acontece quando você deixa o Facebook solto? As pessoas se matam. Não é um processo natural deixar a conversa fluir e se entender sozinhos. O natural, você não tem uma experiência, é que os processos cuidem para que a conversa aconteça, para que ela se torne produtiva. Mas o que vemos é que ela é simplesmente uma reprodução da miséria, do preconceito e da intolerância. As redes sociais são a ocasião para você exercer o poder sobre o outro e aí, de novo, voltamos a essa situação de ensurdecimento amplo, geral e irrestrito, que as pessoas não se escutam. E isso acontece no Supremo Tribunal Federal, na Polícia Federal, em níveis em que é inadmissível que a palavra não tenha o valor e a função que se espera.
Então, tanto pode melhorar quanto piorar no futuro?
Vivemos um tempo interessante porque me parece que é um momento de transformação. Você tem o esgotamento de uma forma como tínhamos de lidar com os conflitos, por exemplo a ideia de condomínio – com a exclusão do outro. Essa era a forma que tínhamos para negociar relações de autoridade. E isso é bom! Suspende, acaba uma espécie de pacto social, mas você tem que inventar um outro. Qual será, não sabemos ainda. Mas temos um consenso de que é preciso produzir. É o próximo capítulo da novela. Se isso virá de uma forma política, de uma força intelecutal ou de autoagenciamento, nada disso está claro. Se soubéssemos de onde viria, estaríamos um pouco mais organizados. Mas não é o que vemos hoje.
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