Cotidiano de Antigamente

Paulo José da Costa

Joseph Heinrich Raschendorfer, o primeiro professor da Colônia Alemã

Paulo José da Costa
27/04/2023 13:40
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Joseph Raschendorfer e família em 1870. | Acervo de Paulo José da Costa

Não posso começar esse artigo de hoje sem usar um clichê: foi o destino que me levou à casa do falecido escultor Erbo Stenzel naquela tarde de 1998. Duas idosas senhoras de ascendência alemã me aguardavam para mostrar uma livrarada em pilhas pelo chão... Tudo era bagunça, a pressa em desocupar o imóvel, uma velha casa de madeira que iria ser levada inteirinha, como monumento arquitetônico, para o parque São Lourenço. Mas meu olhar atento me conduziu logo para dois sacos pretos, daqueles que acondicionam lixo. E meu faro para tesouros logo percebeu centenas de papéis antigos que me apressei em separar e com rápida conversa levei para o carro. Uma vista d’olhos bastou para notar as fotografias, cartas, documentos preciosos que o descaso de herdeiros insensíveis nunca cansa de destruir. E assim os papéis vieram para minhas mãos e foram salvos das máquinas da reciclagem. Hoje estão em meu acervo documentos que contam um pedaço da história da colonização alemã de Curitiba, mais especificamente dos alemães da Morávia e da Silésia, cujas populações foram objeto de limpeza étnica promovida pelos tchecos e russos após a segunda guerra mundial. Mas essa é outra história.
O professor João José Bigarella escreveu sobre a imigração dos Schaffer, das quatro irmãs Gabriel... de sorte que interessados podem descobrir em detalhes as sagas das famílias de colonos vindos da cidade de Römerstadt, na Morávia, hoje Rýmarov, na República Tcheca no seu livro “De Römerstadt a Curitiba - A saga dos Schaffer”. Os papéis que encontrei são ligados visceralmente a um professor que se casou com uma dessas quatro irmãs e viajou de Breslau, na Silésia, que ficava a 120 km de Römerstadt, até a nossa Curitiba. Naqueles sacos de papéis descartados estava a história do professor Heinrich Joseph Raschendorfer, sua mulher Amalia Gabriel e seus filhos.
Joseph Raschendorfer tinha 33 anos quando saiu de Breslau, na Silésia, com destino a Hamburgo, em 8 de fevereiro de 1862. A viagem por terra levaria três meses e Joseph ia acompanhado de sua família, a esposa Amalia Gabriel e os meninos muito pequenos Robert (3) e Franz de Paula (1). Joseph levava na bagagem os instrumentos de seu trabalho: livros de poesia, filosofia, aritmética e história, bem como partituras, métodos de música, instrumentos musicais... Ele era um humanista, como eram os mestres de antigamente... O navio “Franklin” saiu de Hamburgo em 15 de maio de 1862 e em 31 de julho do mesmo ano aportava em São Francisco do Sul.
Os camarotes do “Franklin” eram pequenos, com camas-beliche. Imaginemos o desconforto de dois meses e meio de viagem, com duas crianças pequenas... Um verdadeiro purgatório.
Não raro havia doenças a bordo e os corpos eram jogados ao mar. A alimentação era precária, carne muito salgada, água muito ruim, torradas tão duras e bolorentas que precisavam ser molhadas no chá para serem digeridas. Como narra Bigarella em seu livro sobre os imigrantes de Römerstadt, “no almoço servia-se arroz, ervilha ou sopa de lentilhas, batata inglesa e charque, e à noite chá com torradas...”
Mas chegaram! Uma vez em São Francisco foram necessários ainda quatro dias para pegar o paquete “Imperatriz” com destino a Antonina. E de Antonina a Curitiba, mais três dias subindo a Serra do Mar com as malas e sacos de pertences no lombo de mulas. Como narra Bigarella, “a viagem era bastante estafante para os homens e, naturalmente, para as mulheres e crianças ainda pior. Três dias no lombo de muares. As crianças (ajeitadas em cestos colocados em pares nos lombos de mulas) e a bagagem em cangalhas… Vez por outra uma criança caía do cesto...
Finalmente, Curitiba, em 20 de agosto de 1862. Desde a saída em Breslau até a chegada na capital da recém-criada Província do Paraná foram nada menos que 192 dias! Joseph com certeza tinha recursos, pois normalmente os imigrantes gastavam suas economias nessas viagens, mas o nosso biografado adquiriu quase um mês depois de sua chegada uma bela chácara ao lado do cemitério São Francisco de Paula, então em construção. Ainda resiste por lá uma casa dos Raschendorfer, nas vizinhanças do campo santo.
Papéis encontrados na casa de Erbo Stenzel.
Papéis encontrados na casa de Erbo Stenzel.
Joseph passou a ganhar a vida como professor, inclusive como mestre de música. Achei um registro de que em 15 de março de 1871 ele fazia funcionar uma escola para crianças alemãs com nada menos que 70 alunos! Não lhe devia faltar nada, pois imagino que muitos alunos pagavam com mantimentos e outros produtos da colônia pelos ensinamentos recebidos. Joseph ensinava de tudo, como mostram os papéis que salvei na casa de Erbo Stenzel. Essa documentação saiu de Breslau, atravessou o oceano, subiu a Serra do Mar, dormiu durante um século e meio nas arcas dos antepassados de Erbo Stenzel e veio cair em minhas mãos.
As quatro irmãs Gabriel de Römerstadt.
As quatro irmãs Gabriel de Römerstadt.
Joseph morreu em 1878 e sua esposa Amalia Gabriel em 1910. O filho Robert, que veio no navio, viveu até 1930, mas o outro menino, Franz de Paula, faleceu logo depois da chegada em Curitiba, em 26 de novembro 1862. A descendência de Joseph e Amalia, contudo, não parou por aí: Ernst Anton, Marie Louise, Otto Ludwig, Franziska, Friedrich Wilhelm, Rudolf e Emma Ida, esta última nascida em 1876, perpetuaram e semearam com esse bom sangue as raízes de muitas famílias curitibanas.