José Carlos Fernandes

José Carlos Fernandes

O “Bar do Português”

José Carlos Fernandes
03/05/2024 19:08
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“Meu pai era dono de um bar”. Não faço ideia de quantas vezes repeti essa frase, seguida, não raro, de um complemento: “Criou quatro filhos atrás do balcão”. Não levem ao pé da letra – minhas irmãs e eu íamos para a escola e dormíamos bem longe da estufa das coxinhas. À noite, na ponta dos pés, saíamos do quarto – na casa ao lado – e roubávamos Sonhos de Valsa e Prestígio.
O fato é que o estabelecimento – uma construção da década de 1940 –, passou por muitas vidas, antes e depois de ser do seu José Fernandes. Dia desses, saiu de lá o último inquilino, o que me permitiu erguer de novo a rija porta de ferro e enxergar – no vazio dos destroços – as lembranças que tiram uma soneca lá dentro.
O “Bar do Português”, seu apelido por algum tempo, fica na Brasílio Itiberê com a Ângelo Sampaio, na Baixada. Teve um dia a arquitetura dos armazéns de secos & molhados – o “negócio”, como se dizia. Serviu de endereço para a hoje extinta Viação Cinco de Maio – que ficava na… Rua Cinco de Maio, outrora nome da Brasílio. A via abrigava também a Barbearia Cinco de Maio e o time de futebol de bairro, o Cinco de Maio. Foram vãs todas as minhas tentativas de explicar por que diabos uma data nacional do México gozava de tamanha devoção por aqueles rincões.
Há coisa de dez anos, um veterano me contou que entre 1950 e 1960, uma das cobradoras da Viação Cinco de Maio foi vítima do que se chamava “crime passional”. Uma comoção sem tamanho teria tomado conta da redondeza, mudando o destino daquela esquina. A viação se foi e o local virou bar, exorcizando todos os males com pinga no mentruz.
Em meados dos anos 1970, rolou um boato de que o prédio seria tombado pelo patrimônio. Lorota, mas foi o que bastou para que meu pai, às pressas, o azulejasse todo, de cima abaixo. Tremíamos toda vez que um homem de terno cruzava a porta – talvez fosse fiscal da prefeitura e nos cobrasse uma multa por azulejo colocado. Prestígios na madrugada, nunca mais.
No mais, gosto de lembrar que os craques Hilderaldo Luiz Bellini e Djalma Santos, ao encerrar suas carreiras jogando no Athlético, em 1969, tomavam um pingado no nosso balcão, servidos por painho ou mainha, por meu tio João – com o cigarro preso à boca – ou pelo garçom Orlando, com seus cabelos empapados de Trim. Foi ali igualmente que os fregueses raiz comemoraram a Copa de 70, vendo Pelé, Rivelino, Tostão e Jairzinho na nossa televisãozinha chinfrim – com bombril nas antenas.
Paralelo, repressão e sumiços de jovens. Eram tempos estranhos. Inclusive dentro do Bar do Português. Durante o dia, vendíamos sanduíche de presunto, revistas, jornais, zíperes, botões, retrós de linha, cadarços, jujubas, figurinhas para o bafo, encadernações… À noite, vinham os homens, para beber e repetir as mesmas histórias de sempre sobre uma Água Verde que era feito uma ilha, repleta de italianos por todos os lados.
Mas a turma do noturno gostava mesmo era de falar de futebol. Quando o Coxa perdia, um “saco de risadas”, traquitana que não existe mais, era colocado em cima do balcão, para atazanar os torcedores que saíam do estádio pelo portão da Rua Petit Carneiro. Havia quem gritasse – “seu português fdp”. Uau.
Foi numa dessas prosas regadas a rabo de galo e gasosa Cini que alguém, do nada, partiu para a ignorância. Durante a briga, César, esse era o nome dele, teve o olho perfurado pelo pé de um banquinho do balcão. Ficou cego de um lado. Um grito parado no ar. Dia seguinte, tam- pão bem posto, o herói estava lá de novo. Suspeito até que permanece na área, pois foi de quem primeiro me lembrei, assim que ergui a velha porta do Bar do Português.