Durante uma viagem de trabalho, o representante comercial João Luiz Nardino, hoje com 54 anos, passou mal e teve de ir para o hospital. “Acharam que eu estava com pneumonia, mas uma radiografia mostrou que meu coração estava dilatado. O primeiro médico que eu procurei disse-me que não tinha solução, que eu tinha pouco tempo de vida, fiquei desesperado”, conta. “Aberta a possibilidade do transplante, aguardei dois anos intermináveis na fila.”
Como ele, mais de 63 mil pessoas esperam no Brasil por um órgão como coração, fígado, rim, pâncreas, córneas, tecidos e ossos. À angústia une-se a ansiedade. Por vezes, o paciente chega a ser chamado em vão, pois não passa nos exames por ter algum problema que inviabiliza a cirurgia. “Nesse período, a evolução da fila é acompanhada de perto. O problema maior são aqueles que estão piorando. Depende muito do paciente, mas muitos ficam depressivos. E, mesmo chamados, nem sempre o transplante é possível, não só pela falta de compatibilidade, mas pelas condições momentâneas do paciente”, explica Júlio Coelho, chefe do serviço de transplante hepático do Hospital de Clínicas e professor titular de Cirurgia da UFPR.
O final foi feliz para João Luiz. “Eles dizem para você ficar de prontidão e foi o que fiz. Cheguei a ser chamado duas vezes ao hospital para fazer testes de compatibilidade, mas não deu certo. Em maio de 1994, no entanto, fiz o transplante. Foi um alívio, não estava agüentando mais, não comia, não tinha força para nada, o coágulo no meu coração crescia.” A vida não chega a ser totalmente normal pelos medicamentos que ingere, mas “é outra”. “Sou eternamente agradecido à família do doador, que me salvou a vida. Mesmo sem tê-los conhecido, acho que as pessoas devem saber o bem que fazem ao doar os órgãos.”
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