Saúde e Bem-Estar

A ansiedade do fim (e do recomeço)

Angieli Maros, especial para a Gazeta do Povo
02/01/2016 09:00
Fim de ano não é apenas sinônimo de festividade, descanso e descontração. Para muitas pessoas, esse período também significa estresse. Para tentar explicar o que acontece com aqueles que encaram o fim de ano de uma maneira negativa, a reportagem da revista Viver Bem Saúde e Bem-Estar conversou com a psicanalista e presidente da Associação Psicanalítica de Curitiba, Rosa Maria Marini Ma­­riot­­to. Confira:
O fim do ano é um período que gera estresse?
Para algumas pessoas sim. Há quem se apegue mais ao “fim”, e o acentue, do que à ideia de recomeço, que é o momento do ano-novo. Há essas duas lógicas. Para quem o acento recai sobre a ideia de fim, o sofrimento surge de o fim do ano também nos remeter à ideia de finitude, de que a nossa própria existência é limitada. Isso traz uma questão existencial profunda, porque este período faz com que alguns se confrontem ou reatualizem essa questão.
Há um conflito entre o desejado e o realizado?
Ao final de uma etapa elas pensam no passado – o que ela imaginava que iria fazer –, e no futuro – o que ficou por fazer. Então o fim de ano reúne o que restou para ser feito e o que não foi feito. Para alguns fica um pouco dessa angústia. O estresse está ligado a um conceito de ansiedade. E Freud dizia que a ansiedade prepara o sujeito para o perigo. No fim de ano, isso é encarar o que eu não fiz e que deveria ter feito, o que concluí e o que não concluí.
O reencontro familiar também cria ansiedade?
Sim. Se a pessoa tem alguma questão pendente relativa aos seus laços familiares – e mesmo sociais –, o fim de ano é um momento em que isso recrudesce, porque ela vai ter de se reencontrar com essas dificuldades.
Não é só reencontrar as pessoas, mas esses perigos, que são as questões que ainda restam não elaboradas desses laços familiares e sociais.
De que forma o estresse pode se manifestar?
Essa pessoa pode se tornar mais ansiosa, com menos tolerância, na correria do dia a dia que no fim de ano aumenta: trânsito aumenta, aumentam as pessoas nas ruas, no shopping, na fila de estacionamento, os preços aumentam. O que pode ser corriqueiro passa a ter uma intensidade maior. Seu nível de sensibilidade se aguça. E há ainda os que se melancolizam no fim do ano. É essa tristeza que vai abatendo o sujeito, que vai deixando-o ressentido e que muitas vezes ele nem sabe bem o que é. Há um sentimento de perda, mas nem mesmo se sabe o que perdeu.
Essa ansiedade deve ser encarada como algo normal?
Depende de como cada sujeito a maneja. Se essa situação acomete o sujeito e produz uma paralisação subjetiva, ou seja, ele não quer mais sair de casa, por exemplo, isso é mais grave. Se essa angustia é tal a ponto de fazer o impedimento do sujeito, ele não quer mais ir trabalhar, não vai a nenhuma festa, aí é preocupante. Somos muito movidos pelo mercado, que faz com que giremos em torno dessa questão. Se essa correria não põe o sujeito para andar, mas o faz parar – ou o melancoliza –, isso é algo preocupante.
Crianças e adolescentes se estressam nesta época?
A criança sofre as mesmas ressonâncias que nós: no fim de ano há a apresentação na escola, ela tem que vestir a fantasia, tem que decorar a música, fazer a fala, se apresentar em um teatro para um monte de pais e mães – e nem todas gostam disso. Ela ainda tem que escolher o que quer de Natal, tem de ir ao shopping e procurar o presente. Já o adolescente vive o estresse nos estudos, do vestibular e agora do Enem. São outras preocupações, mas que levam a todos para uma mesma questão: julgamento, avaliação e a ideia de fim.
De que maneira o estresse afeta a saúde?
O estresse é como ansiedade que se acumula e em um momento precisa escoar. E isso pode se dar através do corpo. Então, esse corpo vai padecer pelo estresse, e essa tensão pode prender o intestino, tirar o apetite, causar problemas de pressão, distúrbios digestivos e alergias.
Como lidar como essa situação?
Viver um dia de cada vez tem sido extremamente difícil. Para fazê-lo, é preciso reconhecer o seu impossível, deixar de pensar no passado e não tentar antecipar o futuro. Isso é muito complicado. Então, lidar com o estresse é isso: entendê-lo que é algo pontual e que deve ser administrado a cada dia.
O estresse está ligado a essa ideia humana de achar que controla a sua própria vida e o mundo. Isso traz ansiedade: o trânsito não anda como a gente quer, as pessoas não são como gostaríamos. É impossível controlar tudo, por mais que você deseje.