Saúde e Bem-Estar

Alerta sob lençóis

Mariana Sanchez, especial para a Gazeta do Povo - marianab@gazetadopovo.com.br
25/07/2010 03:19
Ninguém duvida que fu­­­­mar e beber em demasia fazem mal à saúde, mas quem poderia pensar que o sexo oral também contribui para o desenvolvimento de alguns tipos de câncer? A afirmação partiu de um estudo publicado na conceituada revista inglesa de medicina British Medical Journal, que relaciona esta prática sexual com o câncer de boca, orofaringe e esôfago cervical – cujos principais fatores de risco, até então, eram atribuídos ao tabagismo e etilismo. Agora, um dos maiores vilões na gênese do câncer bucal é o Papilomavírus Humano (HPV), também transmitido durante as relações sexuais.
De acordo com o professor e ginecologista do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, Leonel Curcio, existem 130 tipos diferentes de HPV. Destes, 45 comprometem o trato genital inferior, sendo 15 considerados de alto risco. “Eles são responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo de útero, e atualmente estão sendo detectados em 80% dos cânceres de boca e oreofaringe”, afirma.
O HPV é relativamente co­­­­mum no organismo humano. Sessenta por cento da população sexualmente ativa tem ou terá o vírus em alguma fase da vida. Mas nem todos os casos se desenvolvem em células cancerígenas. “O que pode evoluir para um câncer é quando há persistência do vírus de alto risco por mais de um ano e a pessoa infectada tem baixa imunidade. A grande maioria dos casos de HPV regride sozinha, sem maiores complicações”, explica o ginecologista.
O especialista em cancerologia Raphael Semchechen Filho, do Cen­­­­tro de Oncologia do Paraná, afirma que a incidência de cânceres de boca é maior em homens a partir de 50 anos, mas hoje já se percebe um aumento dos casos em mulheres e em pessoas com 35, 40 anos, que não fumam ou bebem, o que confirma a correlação entre a doença e o sexo oral. Semchechen Filho conta que o vírus do HPV na região bucal se apresenta como lesões ulceradas que não curam por um período que supera três semanas. “A pessoa sente ardência ao comer algo quente ou temperado, além de dor, sangramento e, em estágio mais avançado, malcheiro decorrente da proliferação de bactérias. O vírus, uma vez infectado, é potencialmente cancerígeno, especialmente se a imunidade da pessoa estiver deficiente, pois encontrará condições mais favoráveis para se desenvolver”, explica.
De acordo com o médico, o diagnóstico da doença é simples e pode ser feito até mesmo em uma visita ao dentista. A menos que o nódulo canceroso esteja sob a mucosa bucal e não desenvolva as feridas. “Neste caso, o problema pode se manifestar de formas diferentes, como uma dor de ouvido.” A boa notícia é que, se o diagnóstico for precoce, a cura é de mais de 90% dos pacientes.
Mudança de hábito
Leonel Curcio percebe que nos últimos anos houve uma “desmistificação das fontes de prazer”, com mais pessoas fazendo sexo oral do que antes, o que pode explicar a maior presença do HPV como agente causador de tumores bucais. Segundo dados do Centro Nacional de Estatísticas da Saúde dos EUA, mais da metade dos jovens norte-americanos entre 15 e 19 anos experimentaram a modalidade – entre os virgens, um em cada quatro adolescentes já fizeram sexo oral. O problema é que, de acordo com o ginecologista do Hospital de Clínicas, a grande maioria das pessoas não usa preservativo. “Na fase de ‘ficar’ é mais comum do que depois que os casais começam a namorar, pois deixam de se proteger quando adquirem maior confiabilidade”, opina. Curcio avisa que, além do HPV, doenças como a aids, herpes, gonorreia e infecções bacterianas também são transmitidas via sexo oral.
Proteção