Saúde e Bem-Estar

Dê um break

Adriana Czelusniak - adrianacz@gazetadopovo.com.br
26/09/2010 03:14
A analista de sistemas Tatiane Rose Cordeiro, 31 anos, passa a maior parte do seu dia em frente ao computador, mas, além de usar os assessórios de apoio para o teclado e mouse, não perde a ginástica laboral, faz pequenos intervalos, exercícios de alongamento e ioga. Mas Tatiane teve de aprender do jeito difícil. Há alguns anos ela teve tendinite no pulso direito, problema gerado pelo esforço repetitivo. “Tive de fazer um mês de fisioterapia, tomar anti-inflamatórios e faltar ao trabalho durante uma semana. Hoje, depois desses cuidados, a dor constante desapareceu, mas ficou no centro do punho uma bola que, dependendo do movimento, é dolorida”, conta Tatiana, que agora não fica sem seus intervalos.
É claro que, apesar de os benefícios das pausas no trabalho serem inquestionáveis, nem sempre é fácil render-se a elas quando se recebe uma demanda de última hora, ou se está cansado demais para ser superprodutivo. Mas vale o esforço. Confira os motivos que especialistas de diversas áreas apontam para largar tudo, por alguns minutinhos.
Pernas: circule e desestresse
Os minutinhos de intervalo podem ajudar a diminuir o estresse no trabalho, que é um fator de risco para doenças do coração, de acordo com o cardiologista José Rocha Faria Neto, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e diretor científico da Sociedade Paranaense de Cardiologia. “Também do pondo de vista cardiovascular, essa pausa para movimentação das pernas também reduz a chance de trombose nas veias nas pernas, especialmente em quem tem problema de varizes, pernas inchadas ou que sofre de problema cardíaco”, diz. Vale subir algumas escadas, levantar mais vezes para tomar água, fazer um lanche ou ir até outro setor cumprimentar um colega.
Olhos: pare, olhe e pisque
Se você usa o computador para trabalhar, e passa a maior parte do tempo em frente a ele, deve ter cuidado redobrado! Olhando para a tela, piscamos menos e os olhos começam a ficar ressecados. É a síndrome do olho seco, problema cada vez mais comum. “O mais importante é a lubrificação ocular, para evitar a ardência, irritação dos olhos e visão turva. O ideal seria fazer uma pausa de pelo menos cinco minutos a cada hora passada no computador. Mas sabemos que na prática isso é muito difícil”, explica a oftalmologista Cristina de Camargo Cury. Pra quem não consegue fi­­­­car tanto tempo longe do computador, há alguns truques, como piscar bastante, olhar para longe (basta observar algo que esteja pelo menos 50 centímetros de distância), ou usar as lágrimas artificiais.
Músculos: fuja do encurtamento
Qual é a diferença entre o músico Eric Clapton, que pas­­­­sa horas dedilhando sua guitarra, e um trabalhador que faz movimentos repetitivos da mesma forma, mas tem problemas musculares?
Segundo o ortopedista Luis Antônio Munhoz da Cu­­­­­nha, professor de Ortopedia da Univer­­sidade Federal do Paraná (UFPR), a diferença está no estado emocional. “Dificilmente você vai ouvir que um músico teve uma doença ocupacional ou lesão por esforço repetido. Já um trabalhador braçal, ou alguém que tenha um trabalho maçante, costuma ter atenção redobrada e esse trabalho tenso somado ao exercício leva a um processo de falência”, afirma. À medida que a musculatura acumula elementos químicos pelo esforço acentuado, existe a dor e o des­­­­conforto. Quer fugir disso? A dica é do ortopedista: “O break é im­­­­portantíssimo, é preciso fazer as paradas e o alongamento muscular. Assim, a musculatura se recupera e é possível se ter mais um período de trabalho menos es­­­­tres­­­­sante”. O ideal é alongar não só pernas e braços, mas a co­­­­luna to­­­da, pelo menos duas vezes por período trabalhado, especialmente para quem fica sentado, com as pernas para trás, pois essa posição facilita o encurtamento muscular. O médico Clauson Teo­­­­doro de Souza, es­­­­pecia­­­­­­lizado em Saúde do Traba­­­lhador, lembra que um dos principais motivos que causam afastamentos do trabalho são as queixas por doenças do sistema osteomuscular. “Existe uma resistência em fazer a pausa, mas a conscientização tem de partir da empresa, com orientação sobre a saúde no trabalho. Assim, reduzem-se as chances de lombalgia e cervicalgia e evita-se afastamento do trabalho.”
Respiração: escapadinhas ao ar livre
O ar condicionado traz conforto, e, de quebra, desencadeia alergias, rinite e diminui a resistência natural das vias respiratórias. Para o médico otorrinolaringologista Gilberto Vilela Figueiredo Filho, a parafernália também acaba funcionando como um local de acúmulo de bactérias, fungos e sujeiras. “O melhor seria evitar o aparelho, pois algumas pessoas sofrem com a mudança de temperatura no entra e sai do ambiente de trabalho. Mas nem todos têm essa opção então a pausa pode ser saudável para a maioria das pessoas. Ar puro, sol e descanso da rotina têm um efeito benéfico na resistência do organismo, ajudam a árvore respiratória a se recuperar do desgaste do ar viciado, diminuem o contato com os alergênicos do ambiente de trabalho e combatem o estresse. A exposição à luz do dia também ajuda a regular o sono.”
Energia: só happy hour não vale
Você pode parar para se alongar, descansar a vista, se socializar ou curtir um solzinho. Mas o momento de descanso é fundamental, segundo a psicóloga Ana Cristina Limongi França, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Gestão de Qualidade de Vida da Universidade de São Paulo (USP). Ela explica que o organismo tem ciclos, e é preciso dar um tempo tanto para repor energia como para a manutenção geral do corpo e mente. “Quem não respeita essa necessidade trava fisicamente e psicologicamente, pois o trabalho excessivo leva ao esgotamento. Mas é preciso se conhecer, não adianta fazer um intervalo para andar, se a pessoa está cansada, ou achar que o happy hour conta como repouso. Há momentos em que é preciso se isolar mesmo.”
Funcionário feliz produz mais
Bem-estar é a palavra da vez das organizações. Tanto que é cada vez mais comum o funcionário ter disponíveis massagens, espaços para lazer e salinhas para descanso dentro das empresas de maior porte. Funcionários felizes produzem mais, e as pausas realmente os ajudam a ficar longe do estresse, e da falta de atenção. A psicóloga Daniela Levy destaca também a importância dos relacionamentos para se realizar um bom trabalho. “Desligar um pouco do serviço que se está fazendo para conversar com o colega, ou amigos de fora da empresa, sobre assuntos que não têm a ver com o trabalho ajuda a dar aquela espairecida. Só não vale ficar falando mal do chefe, de um colega ou do salário, ou a pessoa vai voltar mais tensa ainda”, diz.
Interatividade
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