O psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes, que ganhou o último Prêmio Jabuti na categoria Psicologia e Psicanálise, defende que a forma de pensar o indivíduo exclusivamente tendo-se em conta estruturas verticais, pelo modelo freudiano do Complexo de Édipo, está com os dias contados.
Analista membro da Escola Europeia de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise e vencedor do último Prêmio Jabuti na categoria psicologia e psicanálise com o livro chamado Inconsciente e Responsabilidade – Psicanálise Do Século 21 (Editora Manole), ele sustenta que os indivíduos da pós-modernidade têm dificuldade em tomar posições criativas em suas vidas.
Ele esteve em Curitiba, em meados de outubro, para participar da Jornada de Saúde Mental e Psicanálise da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, onde falou de relações humanas, doenças psíquicas e tratamentos.
Em seu último livro você fala sobre a psicanálise no século 21. Como ela pode ser vista hoje?
Há uma diferença imensa da psicanálise do século 20 e 21. A anterior foi estruturada no modelo do complexo de Édipo. O que isso quer dizer? Freud propôs explicar a maneira como o homem articula com o mundo bolando uma estrutura que é piramidal e vertical: entre o homem e o mundo haveria uma articulação do pai. O pai seria aquele que daria o rumo certo – o pai metaforicamente falando. Na família era orientada pelo pai, no trabalho pelo chefe e na sociedade civil pela pátria. A mudança radical acontece quando, no mundo pós-moderno, a sociedade deixa de ser orientada verticalmente. Por este motivo a sociedade necessita de uma nova orientação além do Édipo. A psicanálise anterior não se tornou obsoleta, mas se tornou uma parte da psicanálise do século 21.
Há hoje uma busca maior pela autoanálise?
Não tenho certeza disso. Acho que as pessoas estão vivendo uma situação de acovardamento frente ao novo, frente à criação. Essa nossa nova era, uma vez que não é padronizada, exige de cada um a criação de uma solução e a responsabilização por incluí-la no mundo. Mas isso angustia muito. A liberdade não é algo com o que as pessoas lidam com alegria. A liberdade leva a escolhas, e as escolhas levam a riscos. Quando você tem dez opções e você escolhe uma, a única certeza que você tem é que perdeu nove. Após ter vivido certa euforia com a chegada da pós-modernidade, os indivíduos tentam repetir seus antecessores e até mesmo saúdam a disciplina do passado. Acabam buscando hoje muito mais uma síntese que uma posição criativa. O mundo parece ir nesta direção.
Em uma das suas entrevistas recentes, falou que no século 21 existe um novo tipo de amor. Como o define?
No tempo anterior, o amor era intermediado, seja em nome de Deus, da família, da tradição, da herança, dos filhos ou da sociedade. Na pós-modernidade o amor é sem mediação. Não há uma boa explicação para estar com alguém a não ser querer ficar junto. As pessoas têm a sensação de ser algo efêmero porque não estão acostumadas a tomar decisões fundamentais em sua vida baseada no que desejam. Ao meu modo de ver, o amor na pós-modernidade é mais interessante.
A formação psicanalítica e psiquiátrica no Brasil tem sido adequada?
A revolução que nós estamos vivendo também exige da educação uma grande mudança. As universidades estão tentando se adaptar a esse novo paradigma. A formação no Brasil é muito boa de maneira geral. Somos um país de tradição psiquiátrica que alinha com uma europeia de uma tendência existencialista, e com uma psiquiatria americana e inglesa alofônica cientificista. Com as duas correntes estamos muito bem representados.
Não é de se estranhar que muitos trabalhos extremamente importantes estejam hoje saindo das escolas brasileiras de psicanálise.
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