Saúde e Bem-Estar
Entrevista com a escritora Tereza Hatue de Rezende
A doença de Bia foi diagnosticada e tratada como um hemangioma até que, em dezembro de 2006, ela e a mãe, Tereza Hatue, encontraram em um hospital de São Paulo Rafaela (acompanhada da mãe Izamar), que tinha o mesmo problema e que foi curada depois de uma temporada de três anos de cirurgias e tratamentos nos Estados Unidos.
Em março de 2007, Bia e Tereza já estavam em Little Rock, Arkansas, e por lá permaneceram durante 60 dias. Através de uma cirurgia, foram retirados vários “tumores vampiros” (que se alimentavam do sangue do organismo) do pescoço, face, língua e garganta.
Bia ficou cerca de um mês e meio sem poder comer, falar ou sair de casa enquanto se recuperava do procedimento. Para amenizar o sofrimento da filha durante todo esse tempo, Tereza desenvolveu brincadeiras e práticas simples que trabalhavam com os cinco sentidos: audição, olfato, tato, paladar e visão. Estas atividades foram fundamentais para manter a auto-estima e o bom humor de ambas.
Todas as experiências vividas por mãe e filha durante a estada em Little Rock foram registradas em uma espécie de diário e no final do ano passado, transformadas no livro Sentir Para Ajudar a Curar – Uma Experiência Apreciativa, escrito por Tereza com a participação de Bia.
Neste livro, a autora, que já escreveu outras duas obras – Ryu Mizuno – Saga Japonesa em Terras Brasileiras, e Sinfonia de Vida, uma antologia poética-biográfica de Helena Kolody – descreve as atividades que ajudaram Bia a se recuperar e como a presença de um cuidador preparado e preocupado é fundamental para o processo de cura de pacientes e familiares.
Tereza e Bia contam mais sobre o livro e a experiência que viveram em entrevista ao Viver Bem.
Como surgiu a idéia de escrever um guia para cuidadores?
Tereza – De volta ao Brasil reuni todas as anotações que nós tínhamos trazido dos Estados Unidos e pensei: por que não compartilhar esta experiência com as outras pessoas? O livro fala sobre como usar os nossos cinco sentidos, mais o coração. Isso todo mundo tem e não custa muita coisa. Muitas pessoas pensam que ajudar custa caro, que é preciso apelar para presentes extravagantes para fazer com que a pessoa se sinta melhor.
Bia – Mas na verdade, são os pequenos gestos que fazem a diferença, as atitudes. Um carinho, uma atenção, um sorriso de bom dia. Coisas simples que mudam a sua forma de encarar os problemas.
O livro conta com dados importantes sobre diversos assuntos. Por que você decidiu incluir essas informações?
Tereza – Eu precisava explicar e justificar o que eu estava sugerindo. Busquei uma bibliografia vasta para encontrar respaldo científico. Precisava do respaldo de autoridades até mesmo para dar credibilidade ao que eu pratiquei com a Bia nos Estados Unidos, por isso, o livro está recheado de referências. E incluí a bibliografia completa das obras que pesquisei para o leitor que queira se aprofundar nestes temas.
Na apresentação do livro você diz que, inconscientemente, aplicou a investigação apreciativa para ajudar a Bia a se recuperar. O que é investigação apreciativa e como vocês adaptaram o método à realidade de vocês?
Tereza – A investigação apreciativa é uma metodologia empregada em empresas, desenvolvida pelo americano David Cooperrider. Em poucas palavras, consiste em ignorar os problemas, apontar os aspectos positivos do passado e do presente e projetar essas boas experiências para o futuro.
Tanto eu quanto a Bia não nos apegamos às experiências negativas. Desde o começo, tínhamos a certeza de que tudo ia dar certo. Nunca pensamos o contrário. Tanto é que, antes de deixar o Brasil, já tínhamos mandado confeccionar uma placa em homenagem ao médico, agradecendo-o por tudo que ele tinha feito.
Bia – Quando lembro da minha experiência nos Estados Unidos, não consigo pensar nela como algo que me causou sofrimento. Apesar de ter sido realmente difícil, me lembro, na maior parte do tempo, das coisas boas. Dos esquilos que a gente via da janela do quarto, da minha mãe contando piadas para mim de manhã, dos novos amigos que fiz. São essas coisas que acabam guardadas na memória e no coração.
De que forma as práticas apresentadas no livro ajudaram na recuperação da Bia?
Bia – Com certeza toda a atenção e o carinho que recebi foram fundamentais para acelerar a minha recuperação. Não só todo o cuidado que recebi da minha mãe, mas a atenção que recebi de toda a equipe médica, dos amigos que fiz lá e dos meus amigos no Brasil, que criaram uma rede de apoio para mim por meio do Orkut. Para se ter uma idéia, o Dr. Suen, que nos visitava em nosso apartamento todos os dias, nos levou para passear e até para velejar.
Tereza – Lá em Little Rock, uma vivia para a outra, foi o que nos manteve fortes. Porque você se sente solitário em um país que não é o seu, principalmente tendo que falar uma língua que não é a sua.
A doença de Bia foi transformada em case de um programa do Discovery Channel. Por que vocês aceitaram participar?
Tereza – Quando nos convidaram, a Bia estava em dúvida se deveria participar do programa. Eu disse a ela que teria um ônus e um bônus. O ônus é que ela ficaria exposta. Mas o bônus é que ela teria a chance de dizer a todas às outras pessoas que têm o mesmo mal que ele tem cura.
Bia – E também mostrar a elas que é possível ter uma vida normal ou muito próxima do normal, mesmo sendo diferente. Eu, por exemplo, consegui estudar e me formar, fui atleta a vida inteira e tenho muitos amigos. Muitas vezes, a pessoa tem um probleminha e acaba se escondendo do mundo porque acha que ninguém vai a encarar como uma pessoa comum. Mas nada me impediu de fazer o que eu queria, pelo contrário. Não gosto de limitações.
Como foi ver a história de vocês na tevê e ser acompanhada por câmeras o tempo inteiro?
Bia – Foi estranho. Eles nos acompanharam durante poucos dias, mas estes foram bem desgastantes. Começaram a acompanhar o caso daqui do Brasil. Um mês antes da cirurgia vieram a Curitiba. Queriam mostrar como era a minha vida em família, o relacionamento com os amigos, o que eu fazia. Me filmaram trabalhando, pedalando no velódromo… Estavam atrás da gente e pediam para falar tudo em inglês, o que tornou as coisas ainda mais difíceis. Se já é complicado falar de alguma coisa que te incomoda em português, imagine em outra língua.
Lá nos Estados Unidos, acho que a pior parte ficou com a minha mãe. A cirurgia levou cerca de 14 horas. Eu estava dormindo, mas ela teve que ficar 14 horas com as câmeras em cima dela, pedindo para fazer ar de pensativa, perguntando como é que ela estava se sentindo, se ela estava com medo…
Como tem sido a repercussão do livro?
Tereza – Muita boa, tanto é que o livro já foi traduzido para o inglês e espanhol. Recebemos e-mails com relatos de pessoas de diferentes países do mundo – Estados Unidos, Argentina, Japão, China, Portugal. Ainda este ano uma segunda edição do livro será lançada. Também temos o plano de viabilizar uma ONG para preparar cuidadores voluntários, com base nas práticas do livro. O Brasil tem a sexta maior população de idosos no mundo, mas poucas pessoas estão sendo orientadas para serem cuidadores.
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Serviço
Sentir Para Ajudar a Curar – Uma Experiência Apreciativa, de Tereza Hatue de Rezende (Realização SESI), R$ 20. A venda dos livros é revertida em prol da Associação dos Amigos do Hospital das Clínicas (AAHC), fone (41) 3091-1000.
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