Imagine-se nessa situação: família estruturada, filhos crescidos, sua esposa não se adapta aos métodos contraceptivos convencionais e vocês já não têm nenhuma pretensão de aumentar a prole. Mal nenhum em apelar para uma vasectomia, muito mais simples, indolor e menos invasiva que a popularíssima – e controversa – operação de ligação de trompas nas mulheres. Só que pense agora no seu casamento desfeito e numa nova companheira louca para ter filhos.
Reverter esse cenário até pouco tempo era impossível devido à dificuldade de preservar as estruturas. Em contrapartida, a inseminação artificial sempre foi mais impopular por causa dos custos. A solução para boa parte dos casos veio com as microcirurgias, usadas para religar os chamados canais deferentes que foram interrompidos por ocasião da vasectomia. “Dessa forma, permite-se o retorno à passagem de espermatozóides para restaurar a fertilidade”, explica o urologista Fernando Lorenzini, responsável pelo setor de Andrologia do Hospital de Clínicas, que diz fazer aproximadamente uma reversão por semana.
Para decidir pela cirurgia e ter bons resultados com ela, o médico explica que é necessário levar em conta fatores como o tempo de vasectomia ou o também chamado tempo de obstrução – até cinco anos a taxa de gravidez espontânea é de aproximadamente 60% dentro de um ano, de cinco a dez anos de 40 a 50% e, com mais de 15 anos, as taxas são inferiores a 30%. Entram ainda nessa conta a habilidade do andrologista como microcirurgião e as condições funcionais e anatômicas das estruturas que conduzem os espermatozóides, das glândulas anexas ao aparelho reprodutor (próstata e vesículas seminais) e da ejaculação. A operação é recomendada para casais em idade fértil e contra-indicada para homens com infecções nas estruturas ligadas à reprodução.
A reversão de vasectomia é realizada em um centro cirúrgico, sob anestesia peridural e com o uso de um microscópio capaz de aumentar de quatro a 25 vezes o que está sendo focado. O urologista explica que é usado esse equipamento porque as estruturas são muito pequenas e delicadas. “Por exemplo, o diâmetro interno do deferente é de aproximadamente 0,5 milímetro e são realizados, em geral, de oito a dez pontos, utilizando-se fios de sutura de diâmetro na ordem de micras (uma micra é a milésima parte de um milímito)”. O tempo de cirurgia é em torno de três a quatro horas.
Para o urologista Rogério Ribas, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a adesão ainda não é grande e nem todo o caso possibilita reversão, mas se o paciente “passar” pelas restrições, as chances de sucesso são de 90%. “Não podemos esquecer que ainda lutamos contra altas doses de preconceito e machismo. Mas tanto a vasectomia, quanto a reversão são muito mais simples que a ligação tubária. A vasectomia não afeta a masculinidade, apenas impede a fertilidade do homem. Mas o método não deve ser escolhido apenas como contraceptivo. É necessária uma decisão consensual do casal”, explica.
Atualmente, as cirurgias de reversão “a olho nu” não são mais recomendadas, justamente por trabalhar com estruturas mínimas e muito delicadas. “Com a ajuda do microscópio, é possivel atuar apenas na parte afetada, ou seja, religar os canais, sem prejudicar áreas vizinhas”, diz Lorenzini. O valor da cirurgia, segundo ele, é bem inferior aos tratamentos de fertilização in vitro.
Outra chance
Quando decidiu fazer a vasectomia, o comerciante Edemo Vilas Boas Alves, 54 anos, achou que sua vida não teria mais grandes novidades. Muito menos filhos. Afinal, já eram quatro – Fernando, Maurício, Jaqueline e Edimo. Só que, de uma hora para outra ficou viúvo e se viu sozinho com os filhos crescidos. Encontrar uma nova companheira – Elia – foi um processo natural. O problema é que ela não tinha filhos. E sentia vontade de tê-los. Os dois, que são de Ponta Grossa, vieram para Curitiba, avaliaram os tratamentos de inseminação artificial, só que acharam caro demais e ainda havia o risco de “vingarem” dois ou três bebês. “Foi quando soubemos da reversão da vasectomia. Marquei uma consulta e em pouco tempo decidi pela cirurgia. Fiz num dia, saí no outro e dirigi até a saída de Curitiba. Dois meses depois já estávamos esperando o nosso bebê”, conta.
Edemo, que tinha feito a primeira cirurgia há 8 anos, disse que a intervenção foi simples, não houve dor nenhuma e a vida sexual – depois de 40 dias de repouso – voltou ao normal. “O melhor de tudo mesmo foi a chegada do Lucas, quando eu achava que não viveria mais essa emoção”, diz ele, todo prosa com o menino de 6 meses. (LJ)
larissa@gazetadopovo.com.br
Serviço: Fernando Lorenzini, médico do Serviço de Urologia do Hospital de Clínicas da UFPR, fone (41) 3244-1111 e e-mail lorenzinibr@yahoo.com.br.
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