O geriatra José Mário Tupiná e dois pacientes: tratamento integral.
Avanços científicos e tecnológicos estão ajudando a humanidade a viver mais. Porém, esse aumento de anos nem sempre vem com qualidade de vida. A geriatria é uma especialidade médica que tem por princípio tratar o indivíduo de forma integral. Mas o ramo ainda é pouco popular entre os próprios médicos. Em Curitiba são apenas 17 profissionais. No Paraná, o único centro formador de geriatras credenciado pelo Ministério da Educação (MEC) é o Hospital Universitário Cajuru. A instituição forma três geriatras por ano, número insuficiente para atender a demanda segundo o chefe do Serviço de Geriatria do hospital, José Mário Tupiná Machado, que concedeu a seguinte entrevista ao Viver Bem:
José Mário Tupiná Machado – O envelhecimento é um processo de mudanças estruturais e funcionais inerente à vida e de início impreciso. Ao mesmo tempo em que nos desenvolvemos, envelhecemos. São processos simultâneos.
Vive-se mais, mas não se vive melhor. Isso porque temos medo da velhice que conhecemos, que é doentia, não é saudável. O medo é de ser velho doente. O envelhecimento traz rugas, calvície, diminuição da várias funções e outras alterações, mas não leva por si só à dependência e à perda de autonomia. É possível aos 90 anos exercer a cidadania desde que se tenha saúde.
Aí vem o investimento precoce. Se a pessoa tiver um bom pediatra e depois um bom clínico pode deixar o geriatra para mais tarde, aos 60, 65 anos. Mas o que acontece é que os colegas estão se dedicando a atender doenças e não a promover a saúde. Pediatra tem de imaginar que a criança vai ser um velho saudável, manter a saúde dessa criança e oferecer ferramentas aos pais para que eles incutam na rotina de vida da criança bons hábitos – de cultura, atividade física, higiene – diminuindo as chances de doenças como obesidade, depressão, osteoporose, hipertensão e diabete. Isso depende muito do estilo de vida, da harmonia, do equilíbrio, da alimentação, do sol, do manter-se ativo física e intelectualmente. Sabe-se hoje que aos 90 anos as pessoas têm 53% de chance de se tornarem dementes. Isso porque elas estão chegando aos 90 sem ter tido cuidados nos anos precedentes.
A predisposição não confirma a possibilidade de ser doente. Você pode usar de várias orientações para diminuir a chance ou protelar o início da doença. Qualidade do envelhecimento depende de 25 a 30% da genética e 70 a 75 % dos ambientes familiar, social e profissional. O restante fica por conta do estilo de vida. A pessoa não pode se acomodar e se conformar. A longevidade tem dependência pequena da genética. Vai depender do que se fez na vida nos anos anteriores. Veja como crianças de quatro anos são bem parecidas e os velhos de 90, não. A criança tem grande dependência da genética, outros itens vão se tornando mais importantes ao longo da vida.
Demência, osteoporose, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, diabete, depressão, Mal de Parkinson e catarata.
A depressão não é inerente ao processo de envelhecimento – às vezes a família e o próprio idoso acham que é normal. Na velhice, a depressão pode se manifestar de forma sutil, com distúrbio de sono, dores nas costas, alterações no apetite e na memória. A manifestação clínica pode não ser clássica. O paciente vai ao médico por uma queixa e o profissional mais atencioso vai chegar ao diagnóstico. A opção de medicamentos disponíveis é muito grande, mas algumas não são adequados ao idoso. Outras, têm menos efeitos colaterais. Por exemplo, não usamos nos idosos antidepressivos tricíclicos, que têm grandes efeitos colaterais como constipação intestinal e tontura.
A nossa sociedade, incluindo os médicos, não acordou para esse fato. Ainda formamos um grande número de pediatras. Os geriatras não ocupam espaço por causa de uma questão cultural. O clínico atende o idoso, porque idoso é interpretado como se fosse um adulto um pouco diferente. Ainda existem profissionais procurando o elixir da juventude. Há posturas e indicações sem critérios científicos e o consumidor desinformado embarca. O papel do geriatra é garantir o envelhecimento saudável e não promover o rejuvenescimento. A pessoa acha que o geriatra vai receitar uma coisa milagrosa. O geriatra não tem de agregar remédio e sim retirar remédio. Às vezes o paciente é atendido por vários profissionais e cabe ao geriatra administrar qual é a real coerência da necessidade desses remédios, encarando o paciente e não as doenças.


