Saúde e Bem-Estar

Pedaço de mim

Adriana Czelusniak - adrianacz@gazetadopovo.com.br
14/11/2010 02:16
No início do século passado combatia-se o câncer de mama com a retirada de todo o seio e também dos músculos da região. Na década de 1950, começaram a ser feitas retiradas menos agressivas e, na década de 1980, a quadrantectomia passou a fazer retiradas parciais, de tumores pequenos, sempre aliadas à radioterapia. No entanto, o avanço da Ciência acabou levando a um fato curioso: há o aumento no número de mulheres que, antes mesmo de terem o câncer instalado, resolvem recorrer à mastectomia (retirada total da mama) e trocam o seio natural por um implante.
“O volume de mastectomias está aumentando em todo os Estados Unidos e há muitas razões a serem consideradas, desde a preocupação com o histórico familiar de câncer à ansiedade da paciente diante do aumento dos casos”, afirma por e-mail em entrevista à Gazeta do Povo a médica Sarah MacLaughlin, cirurgiã especialista em mastectomia da Clínica Mayo, um centro médico norte-americano referência internacional em cirurgias plásticas e transplantes.
Esse comportamento de prevenção teria ganhado força, entre outros motivos, pelo aumento na realização de exames genéticos que detectam mutações que podem elevar os riscos de desenvolver câncer de mama, ou de recorrência da doença. As mulheres, cujos exames (chamados BRCA1 E BRCA2) apresentam resultado positivo, estão preferindo submeter-se a uma mastectomia como medida preventiva. Mas a cirurgiã norte-americana lembra que a remoção das mamas não significa garantia de eliminação do câncer já existente e não exclui de todo o risco de câncer de mama.“É necessário considerar caso a caso a situação de cada paciente e tomar decisões com base no que é melhor para a pessoa”, explica.
O oncologista e mastologista do Hospital das Clínicas Vinícius Milani Budel também observa um aumento na remoção do seio como prevenção do câncer de mama. Mas lembra que a doença é sistêmica, e não localizada, o que quer dizer que mesmo com a remoção, o paciente ainda pode ter um câncer de mama. O mastologista Sérgio Hatschbach explica que durante a cirurgia profilática, chamada também de redutora de riscos, é retirada boa parte do tecido da mama, mas é feita a manutenção da aréola e do mamilo do seio. Neste caso, o procedimento é chamado de adenomastectomia. “Muitas vezes se faz necessária a manutenção de uma quantidade pequena de tecido subareolar para evitar uma complicação cirúrgica, como a necrose de mamilo e aréola. É importante enfatizar que neste tecido remanescente poderá ocorrer a formação de um tumor em futuro mais distante”, alerta. Ele também comenta sobre outro tipo de cirurgia profilática comum. “Naquelas pacientes que estão sendo tratadas por um câncer em uma das mamas, poderá ser indicada uma cirurgia redutora de riscos na mama oposta, com implante de prótese.”
Mastectomia x câncer
Quando o câncer já está instalado, a mastectomia pode ser a melhor opção, segundo o cirurgião plástico Renato da Silva Freitas, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Quando realizada precocemente, a remoção pode levar à cura da paciente. Porém, algumas mulheres podem estar num estágio adiantado da doença, então a mastectomia visa a redução das células tumorais, e outros métodos, como a radioterapia e a quimioterapia, poderão levar à cura”, explica Freitas.
Ele observa também que em tumores precoces a paciente pode ser submetida à quadrantectomia, com a retirada de uma parte da mama associada à radioterapia, tendo resultados semelhantes aos da mastectomia total, mas com menor mutilação das pacientes. Hoje o processo de remoção do seio, seja total ou parcial, tem uma recuperação mais rápida e menos dolorida. Também houve avanço nas opções de técnicas de reconstrução do seio, seja por implantes de materiais como o silicone, ou pelo aproveitamento de pele e tecido da própria paciente.