Saúde e Bem-Estar

Preço em baixa, libido em alta

Leonardo Bonassoli, especial para a Gazeta do Povo
16/05/2010 03:10
A quebra da patente saiu no final do mês passado em decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que se baseou na primeira patente do medicamento, na Inglaterra, em junho de 1990. A legislação brasileira considera que este tipo de propriedade intelectual cai em domínio público após 20 anos.
O sildenafil surgiu no mercado como um medicamento vasodilatador e ainda hoje em dia é usado em casos de hipertensão arterial. O uso da droga para a disfunção erétil aconteceu quase por acaso. O cardiologista Claudio Pereira da Cunha, do Hospital de Clínicas, conta que cientistas perceberam que a substância não era tão efetiva para o coração, mas aumentava a circulação na região peniana. “Dois pesquisadores observaram este aspecto, compraram parte da patente e começaram a estudar este campo.”
O Viagra é o sexto medicamento mais consumido no Brasil. No gênero, perde para o concorrente Ciallis. Com tanta predileção por drogas como essas, é fácil prever que a redução do preço irá facilitar o uso indiscriminado.
Especialistas ouvidos pelo Viver Bem concordam que haverá uma tendência à automedicação, aumentando os riscos de efeitos colaterais importantes, como cardiopatias.
Drogas como o Viagra necessitam de acompanhamento mé­­­dico e receita para serem comprados, mas não é incomum que ho­­­­­mens de todas as idades te­­­­nham acesso a esses medicamentos. A contraindicação co­­­­meça em portadores de doenças coronarianas que usam nitratos (me­­­­dicamentos para o coração como monocordil, isordil e sustrate, utilizados geralmente em casos de angina). “O uso concomitante causa queda de pressão arterial de forma grave, muitas vezes irreversível, podendo levar à morte”, alerta o urologista Fer­­­nan­­­do Lo­­­­ren­­­­zini, do Hospital de Clínicas.
Lorenzini aponta outras contraindicações do medicamento, para pessoas com retinite pigmentar hereditária (doença degenerativa genética da vista), com tendência ao priaprismo (ereções muito prolongadas, ge­­­ralmente presente em portadores de leucemia e anemia falciforme) ou ainda com insuficiência hepática. “Muitos indivíduos não conhecem a sua situação cardiovascular, acabam tendo acesso ao remédio e correndo riscos,” afirma o urologista Ro­­­­gério de Fraga, do Hospital Vita Ba­­­­­­tel.
O chamado “uso recreativo”, ou seja, o consumo por homens que não têm problemas de ereção, também traz riscos. “Em pessoas saudáveis, o remédio pode causar dependência psicológica. O sujeito passa a achar que pode tudo por usar a pílula e depois falhar quando não usar”, afirma Lorenzini. “Um jovem de 18 anos tentar ter uma superperformance é provavelmente um problema de insegurança. Sexo é segurança, confiança e interação en­­­tre os parceiros,” completa Fraga.
O cardiologista Walmor Len­­­ke, do Hospital Vita, tem uma visão otimista das pílulas contra a disfunção erétil. “Alguns dizem que aumentar a atividade sexual pode provocar riscos para cardíacos, mas sexo não é o mesmo que atividade física forte. O cardiologista é questionado sobre a relação com exercício físico. O único risco é a associação de remédios. Resolver disfunção erétil dá mais qualidade de vida. Mas sempre tem que ter receita para evitar os riscos”, aconselha.
De fato, passar pelo consultório médico é considerado o único jeito de evitar surpresas desagradáveis. “O problema não é ter mais gente usando, pois se for monitorado por médico, o risco diminui,” afirma Lenke. “As pessoas que têm doença devem escutar o médico sobre isso para ver se há liberação. Não há nenhuma evidência a longo prazo de uso prolongado com relação ao coração”, completou Pe­­reira da Cunha.
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