Saúde e Bem-Estar
Fátima foi encaminhada para um hospital maior e, antes da confirmação do resultado da biópsia, ouviu a médica dizer que ainda não sabia qual seria o melhor tratamento, mas que ele deveria ser rápido. Um dia depois, a cirurgia de retirada do tumor foi marcada, seria feita no mês seguinte. “A médica não se conformou quando minhas três filhas, que são médicas, pediram para que eu voltasse para o Brasil. Elas haviam procurado em Curitiba o mais bem-conceituado médico nessa área e ele disse que eu deveria voltar para casa”, diz. Além de ele garantir que Fátima seria bem atendida, explicou que ter a família ao lado em momentos como esse é fundamental para a recuperação.
Um ano após a cirurgia, Fátima revela que esse apoio e comprometimento com seu bem-estar fez uma grande diferença. “Aqui eu me senti segura, fui muito bem preparada. Ao longo do tratamento, o médico, a fisioterapeuta e todos os outros profissionais não só me davam apoio como me elogiavam, dizendo que eu estava enfrentando aquela fase muito bem”, diz.
Mudanças recentes
A atitude do médico de Fátima – conectar-se com seu tratamento e trazê-la para perto da família – é cada vez mais valorizada. Por muito tempo os médicos foram treinados para salvar vidas, sem se envolver com o sofrimento dos pacientes ou familiares. O reumatologista Sergey Lerner, coordenador da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital da Cruz Vermelha, supõe que ainda hoje metade dos médicos continue com uma postura distante, o que considera uma falha grave. “O médico deve ter a sensibilidade no tom de voz, tem de transmitir à família tranquilidade e segurança, no sentido de que o diagnóstico estava certo e que os procedimentos foram corretos”, diz. Ele afirma que a atitude fria é resultado de anos de estudo e treinamento focados no aspecto técnico da Medicina, opinião compartilhada pelo médico italiano Luigi Grassi, psiquiatra e presidente da Sociedade Italiana de Psico-oncologia, que esteve no Brasil em outubro para falar sobre como comunicar más notícias aos pacientes e familiares, durante o último Congresso Brasileiro de Cancerologia.
Ele afirma que estudos apontam o envolvimento e o acolhimento do paciente por parte dos médicos como peça-chave no tratamento de doenças graves, ressalta que os profissionais de saúde precisam romper a “postura-robô” e afirma que a comunicação é fundamental para a recuperação do paciente e da família. “Em uma tentativa de autodefesa, os médicos não são treinados para acolher o lado humano da Medicina. Se formam com a ideia de que podem consertar tudo e, quando falham, têm dificuldades para enfrentar a situação. Nessa hora a habilidade de comunicação, que não é nata nem é treinada nas escolas, é fundamental para o paciente. É com a experiência que o médico consegue perceber quando e como dizer o que deve ser dito e para isso precisa praticar”, diz.
Recuperação
A humanização nos consultórios é uma importante ferramenta para reduzir o medo e a ansiedade do paciente e, com isso, aumentar a confiança no tratamento. A teoria tem sido confirmada pela própria vivência médica. Segundo a psicóloga Raquel Pusch, presidente do departamento de psicologia da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), quando o médico procura um relacionamento próximo e amistoso com o paciente, ele é quem mais ganha com isso. “O médico passou a entender que tem de acolher a família, que é o cliente secundário. E que tanto o paciente quanto a família devem criar um vínculo e ter confiança com a equipe médica. Quando isso acontece, e a família percebe que o melhor está sendo feito para a recuperação, o estresse é minimizado diante de qualquer fatalidade”, diz. Fora isso, lembra a psicóloga, os profissionais estão cada vez mais assistidos, pois a figura única do médico está sendo substituída por uma equipe multidisciplinar, que compartilha com ele as responsabilidades. “O médico já não é ‘dono’ do paciente e o seu foco não se dá mais na doença, mas no doente e nos cuidados que ele deve receber”, afirma.
* * * * * *
Interatividade
Você já ouviu de um médico uma má notícia? Como avalia o tratamento que recebeu na ocasião?
Escreva para leitor@gazetadopovo.com.br
As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.
Colunistas
Agenda
Animal


