Vacinas não duram para sempre; confira quais perdem a eficácia ao longo dos anos
Cecília Aimée Brandão, especial para a Gazeta do Povo
08/10/2019 08:00
Quais vacinas devem ser reforçadas e quais podem ser aplicadas apenas uma vez na vida? Foto: Bigstock
Nem toda vacina pode ser aplicada apenas uma vez na vida. Com o passar dos anos, a memória do nosso sistema imunológico a determinados imunizantes pode diminuir. É nessa hora que o reforço deve ser feito, a fim de evitar que o corpo fique vulnerável às infecções.
Vacinas nada mais são que um estímulo inteligente para o sistema imunológico. Ao serem expostas aos vírus mortos (ou vivos, porém atenuados) presentes nas vacinas, as células de defesa do organismo criam os chamados ‘anticorpos’. Assim, quando o corpo for exposto ao agente infeccioso, seja ele um vírus ou uma bactéria, o sistema imune saberá como combatê-lo. Afinal, já viu a versão atenuada desse mesmo micro-organismo antes e tem os anticorpos necessários a esse combate.
“Em uma exposição futura a tais agentes infecciosos, as células de defesa estarão prontas com a memória imunológica para combatê-los, evitando as doenças”, esclarece a médica coordenadora do departamento científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), Ana Karolina Barreto Marinho.
Proteção limitada?
Embora a proteção contra febre amarela exija apenas uma doses de vacina, para que o corpo fique sempre protegido contra a gripe, no entanto, é preciso um reforço vacinal anual. Mas por que algumas vacinas podem ser aplicadas apenas uma vez e outras precisam de várias doses, ao longo da vida?
De acordo com Bernardo Montesanti Machado de Almeida, médico infectologista do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC/UFPR), em Curitiba, alguns fatores explicam essas diferenças. A mudança estrutural no vírus, como ocorre com o imunizante contra a gripe, é um deles. É por esse motivo que há campanhas de vacinação contra a gripe todos os anos, em todo o mundo, com as vacinas modificadas e preparadas para o combate dos vírus alterados — embora esteja em estudos uma nova vacina contra a gripe que não precisaria ser alterada todos os anos.
Há também uma queda natural da proteção imunológica com o tempo. É como se as células de defesa se esquecessem de um dia terem visto aquele micro-organismo, e o reforço pela vacina ajuda as células a relembrarem. Nesse caso está a vacina contra difteria e tétano (dT).
“Infelizmente, a maioria se esquece das vacinas na fase adulta e isso abre a possibilidade de entrada de alguns vírus previamente eliminados no país ou em alguns estados, como o sarampo. Para boa parte das vacinas, basta realizar um ciclo de vacinação para se ter proteção contínua. Esse é o exemplo da tríplice viral (SCR) que necessita duas doses, hepatite B que necessita três doses e a febre amarela, onde uma dose basta. Porém, há outras vacinas que necessitam de reforço em períodos definidos, devido à queda de proteção com o tempo, como no caso da dT (difteria e tétano), que necessita de reforço a cada 10 anos, ou à mudanças estruturais do vírus, como no caso do influenza (gripe), que necessita de reforço anual”, explica o médico Bernardo Montesanti Machado de Almeida, infectologista do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC/UFPR), em Curitiba.
Vacinação sempre em dia para todas as idades
Além dos reforços, adultos precisam receber vacinas que não foram aplicadas na infância, de acordo com o risco de exposição a determinadas doenças. “Existem vacinas que são indicadas dependendo da profissão, gestação e viagens”, completa a médica Ana Karolina.
No caso de adultos com bebês em casa, pode ser necessário o reforço da vacina contra coqueluche, pois familiares podem carregar a bactéria e não manifestar a doença. “Os pais ficam assintomáticos ou com sintomas leves, porém podem transmitir o agente infeccioso para o bebê. Como o sistema imune da criança ainda está em desenvolvimento e é mais vulnerável, ela pode pegar a doença e desenvolver os sintomas de forma mais grave”, explica a médica.
Mas por qual motivo vemos adultos contraindo doenças mesmo após terem sido vacinados na infância? Dependendo da idade, alguns adultos não receberam as vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola, por exemplo, ou, de acordo com o calendário vacinal da época, receberam apenas uma dose, segundo a médica Ana Karolina.
“Muitas pessoas não possuem o esquema completo. Por exemplo, são necessárias duas doses da vacina para caxumba, rubéola e sarampo (SCR ou MMR) para garantir uma proteção de 95 a 99% para sarampo. Uma dose apenas confere proteção mais baixa. Outro motivo pela qual podem ocorrer casos, mesmo em pessoas com vacinação completa, é que, apesar da proteção ser alta, sempre haverá uma pequena parcela de pessoas que não terão soroconversão. Para o sarampo, isso ocorre entre 1 e 5% dos casos. Isso significa que o esquema completo protege muito, mas não anula a possibilidade de infecção”, completa o médico Bernardo Montesanti.
No caso de adultos que não sabem quais vacinas tomaram, seja pela perdas da carteira de vacinação ou a falta de controle, todas as vacinas devem ser dadas novamente. “Elas não sobrecarregam o sistema imunológico. Na dúvida, sempre vale a pena vacinar, pois esta é a única maneira de evitar doenças graves e incapacitantes”, esclarece Ana Karolina. A melhor forma de estar em dia com a prevenção é consultar um profissional de saúde e acompanhar os calendários de vacinação específicos para a faixa etária, em especial crianças, idosos e gestantes.