Opinião

O pelado dos Campos Gerais

21/07/2022 18:54
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Vivemos num “Brasil Diferente” (já dizia o nosso Wilson Martins), onde o Sol nasce para todos, mas convém acordar cedo para pegar um lugar na fila. O paranaense de serra acima pode ser considerado frio, avesso ao calor humano. Em contrapartida, sua íntima relação com o sol vem de longe.
Quando no Sul do Brasil o termômetro marca zero grau, conta-se à beira do fogo das grimpas uma das mais curiosas histórias da Colônia Cecília, a experiência anarquista do italiano Giovanni Rossi em Palmeira. Pode ser apenas uma lenda, mas o que se conta é que apenas um dos 150 oriundos do Norte da Itália viveu a experiência anarquista de forma radical.
Seria possível um homem viver mais de dois anos embrenhado nos pinheirais dos Campos Gerais, se alimentando de pinhões, ervas e raízes, com temperaturas abaixo de zero, e completamente pelado?
Ele era um “ragioniere”, na Itália é um contador, o encarregado da contabilidade comercial de uma firma. Nascido na Lombardia, era um janota milanês do final do século, todo engomado dentro de um figurino, com pouco mais que um metro e meio, magérrimo e a pele branca de neve.
O “ragioniere” não estava na lista de embarque para a América do Sul, na véspera do navio mercante Città di Roma zarpar de Gênova, em 20 de fevereiro de 1890. Na noite anterior, enquanto Giovanni Rossi jantava numa cantina, o franzino contador se aproximou do líder anarquista e se apresentou voluntário para a aventura.
- Dottore Rossi, quando chegarmos ao Brasil eu posso fazer o que bem entender?
Em abril, os 150 anarquistas chegaram ao planalto dos Campos Gerais para viver o ideal de liberdade, o amor livre, a inexistência da propriedade privada, a vida sem regra.
Era outono e enquanto o resto do grupo tratava de acomodar as tralhas, o “ragioniere” foi procurar Giovanni Rossi. Ainda com a mala de papelão numa das mãos, ele repetiu a pergunta feita no cais de Gênova:
- Posso fazer o que eu quiser?
Olhos nos olhos de Giovanni Rossi, o “ragioniere” iniciou então um lento striptease: jogou a mala de papelão ao chão, deixou cair o paletó de linho branco e começou a se livrar do resto das roupas, peça por peça, até ficar completamente pelado. Em seguida, se despediu do líder:
- Addio, dottore!
Girou os calcanhares e caminhou em direção ao campo. Passo a passo, a bunda branca do “ragioniere” foi sumindo de vista, até desaparecer por entre um capão de pinheiros do Segundo Planalto.
Por mais de dois anos não se soube o paradeiro do “ragioniere”, até correr na vila da Palmeira o boato de que um lobisomem estava roubando pão nas casas dos colonos. Como de costume, depois de assados no forno a lenha, os pães eram postos para esfriar no aparador da janela das cozinhas. O lobisomem não atacava o galinheiro, tinha predileção por pão de milho na janela e, assim, várias casas dos Campos Gerais se viram desfalcadas no café da manhã.
Uma expedição de captura foi então formada. Depois de dias e noites na tocaia, os colonos construíram uma tapera com forno a lenha no meio da invernada e o lobisomem caiu na armadilha: e quem resistiria àquele perfume de pão saído do forno.
Musculoso e bronzeado, pelado e peludo da cabeça aos pés, era ele. O “ragioniere” nascido na Lombardia, com pouco mais que um metro e meio, magérrimo e a pele branca de neve. Do corpo mirrado que se despediu de Giovanni Rossi e se embrenhou nos pinheirais, a única lembrança visível do “ragioniere” era a bunda: branca do jeito que veio, branca do jeito que se foi.

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