O meu pai é ucraniano, meu avô ucraniano, meu bisavô também e o tataravô não se sabe. É bem provável que fosse ucraniano também, o primeiro Jedyn. Explico: ele chegou à Poltava, na Ucrânia, sem dizer quem era e de onde vinha. Era mercador. E ganhou dos locais o nome Ieden – que traduzido para o português significa único e nos passaportes austríacos virou Jedyn, com “j”. Do lado materno, os Samagalski – que vem de samei da Galícia, ou melhor, sozinho da Galícia – repetem o padrão. Daí foi só o destino juntar o “único” Peter com a “sozinha” da Galícia Lidia para eu nascer. Com DNA 100% ucraniano.
Pequena, eu adaptava tudo ao idioma quase pátrio. A minha Branca de Neve tinha mordido um iabluko envenenado e a kozá derezá (uma cabra levada da breca) substituiu à altura o boi da cara preta. Acho que se tivesse nascido em qualquer outro lugar do mundo seria assim também. E seria diferente de que jeito se as amiguinhas eram da comunidade, as minhas bonecas tinham traje típico todo bordadinho com flores em preto e vermelho e eu passava horas com as minhas babas (avós), que caprichavam no sotaque engraçado e declinavam os verbos em português como faziam com os ucranianos? Depois que eu fui para a escola bem que tentei ensiná-las, mas era muito mais divertido ouvir que as “formigui andam na chom” e que os banhos pelados nos rios da Ucrânia eram sem “malhícia”. Eu ria e fingia que acreditava…
Foi com essa dupla de babas – a Paraska, mãe do meu pai que eu visitava sempre aos domingos, e a Maria, mãe da minha mãe, que morava conosco – que eu aprendi que na vida há que se ter coragem, sem perder de vista o respeito às origens e a defesa da liberdade. Elas, que ganharam o mundo e cuidaram da família, me ensinaram isso sem nenhuma formalidade, através de bordados, música, poesia e contato com a natureza. Os meus pais me ajudaram a incorporar isso, ensinando ucraniano e contando como o dido (avô) Jedyn escapou de um trem que ia para a Sibéria, protagonizando uma fuga cinematográfica num lago congelado, e como alguns Samagalski lutaram pela Ucrânia livre. Assim, criança de tudo, eu já levantava a bandeira anti-soviética e fazia ras-dva-trê (passo básico da dança ucraniana), enquanto o restante da molecada talvez nem soubesse da tal Guerra Fria. Acho que, na época, conquistei até alguns adeptos à minha causa, graças, em parte, à uma estratégia de marketing: eu passava horas escrevendo o nome dos amiguinhos em alfabeto cirílico e eles saíam da “aula” se considerando “ucranianos de nascença”.
Esses dias estava pensando na vantagem de ser uma quase “ucraniana de nascença”. Tenho, por exemplo, dois natais e duas páscoas. Um normal como todo mundo e outro po starómu, seguindo o calendário antigo, daí sem presentes e ovos de chocolate. Posso também explicar a simbologia e a técnica das pêssankas – que em tempos pagãos eram cultuadas como talismãs, graças a capacidade de absorver as energias negativas, desde que contivessem a clara e a gema dentro. Ou conversar em ucraniano “varenekônico” (em referência aos tradicionais varenekes, pastéis recheados cozidos) no meio de todo mundo um assunto extra-confidencial. Mas o melhor de tudo é saber que, além desta, eu tenho uma outra casa. Por lá, se fala mais cantado, os detalhes fazem a diferença e por pouco se faz uma festa. Ainda não a conheço de perto, mas espero carregar a família toda logo para lá. Sei também que a conta dos 100% dos genes já sofreu alguma mutação, acho que por causa da tal determinância do ambiente. Assim, acabei como a “russa” que gosta de samba e a “polaca” que gosta de praia. E quem diz que adianta explicar que eu sou ucraniana…
Larissa Jedyn é repórter do Viver Bem, gosta do poeta Shevchenko – o Tarás – , mas, nas horas vagas, torce pelo futebol do homônimo que joga no Chelsea.
viverbem@gazetadopovo.com.br
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