Embora a vida seja um contínuo processo de mudanças, às vezes é preciso romper com mais intensidade e tomar um novo rumo. “O que motiva o grito de independência é uma necessidade interna, o processo de saturação. Por trás dele, há determinação. E uma meta ou um sonho”, afirma o psicólogo, psiquiatra e hipnoterapeuta Rui Fernando Cruz Sampaio. Que lembra também: “Um sonho sem ação é ilusão”.
Não que você tenha de sair correndo do escritório sem olhar para trás ou sair para comprar um maço de cigarros e não voltar para casa nunca mais. É preciso planejamento. Como fez Ângelo Nogueira, 34 anos. Designer e ilustrador, ele era sempre contratado por agências de publicidade para exercer a primeira função. Mas, sabe como é, por que desperdiçar um talento? “O pessoal pedia ilustrações e era uma função que eu exercia sem receber nada em troca. Isso me incomodava demais, sempre fui coração mole”, conta. A promessa não cumprida de um aumento de salário elevou o nível de insatisfação às alturas: “Estava triste com a falta de reconhecimento”. A saída? Montar o próprio negócio.
Mas não sem antes pesquisar muito, por cerca de dois anos. O projeto finalmente saiu do papel há dez meses, quando Ângelo e a mulher, a administradora Ângela Wolff, 28 anos, doaram os móveis do apartamento para abrigar a loja virtual, na qual o designer pôde unir seus talentos, desta vez em benefício próprio.
O “empurrão” que ele recebeu da mulher e hoje sócia é um facilitador da mudança. “O apoio nessas horas dá conforto e melhora a autoestima. Estar acompanhado de pessoas positivas que colocam você para cima é eficaz nesse processo de motivação”, diz Sampaio.
Eu contra o mundo
Dê os dois ouvidos a quem tem uma palavra de incentivo. Porque a reação da maioria é a descrença. “É um olhar de perplexidade. Até quem dizia apoiar minha decisão me olhava como se eu estivesse maluco”, diverte-se o professor de Filosofia Benito Maeso, 38 anos, que antes trabalhava com publicidade. E onde já se viu, trocar um emprego em uma grande agência, que paga bem, para ser professor de Filosofia? Ainda mais depois dos 30, casado e pai? “Parte da minha família pensou só no quanto eu ganhava e não se eu estava feliz.”
Felicidade é algo que hoje dá para perceber na empolgação dele. “A melhor campanha que eu fizesse não ia ser tão importante quanto ir para a sala de aula e abrir a cabeça dos alunos. Se alguma coisa que falei na aula ajudar um deles a tomar uma decisão no futuro que faça bem a ele ou a alguém, estou realizado.”
Como Ângelo, Benito também teve o apoio da mulher, a publicitária Patrícia, 37 anos. Mesmo assim, não foi simples. A transição entre as atividades exigiu muita adaptação. Os dois montaram um empresa de produção de vídeos e conforme Benito ia se estabelecendo como professor, ajudava Patrícia. “Hoje estou me estruturando para que ela consiga fazer a mudança de rota dela”, diz.
Benito teve coragem de fugir do modelo. Não é fácil, pois mudanças envolvem risco, medo do desconhecido. “Mas se não mudar, não redefinir, não cresce, fica enrijecido, inclusive com a possibilidade de adoecer”, alerta a psicoterapeuta Janete Farion.
Ponto de partida
Se o copo da sua vida está a ponto de transbordar, respire fundo e se pergunte: “O que me faria mais feliz?” Só o processo de se analisar – seja com a ajuda de um profissional ou não – vai trazer as respostas. “É preciso ser muito observador de si próprio, estar atento aos seus sentimentos e refletir, se perguntar muito ‘o que eu quero?’, ‘como eu quero?’”, diz Janete. Ela invoca, inclusive, a ideia da esfinge: “Decifra-me ou te devoro”. Ou seja, se você não sabe o que quer, a vida pode levá-lo para onde você não quer.
A análise é ainda mais necessária se você não sabe a fonte de seu desconforto. Pode não ser, por exemplo, o trabalho em si, mas as relações dentro dele. “As situações da sua vida devem estar de acordo com aquilo que você sabe de você. Se conseguir ter essa coerência e transitar com seus próprios recursos neste mundo, melhor”, afirma a filósofa Alba Regina Bonotto. “Você precisa ser fiel a você mesmo; se não for, a quem vai ser? O autoengano é a pior atitude que o ser humano toma contra si mesmo”, completa Janete. “Todas as respostas estão no nosso inconsciente”, reforça Sampaio.
Essa coerência muitas vezes envolve dor. Mais uma vez, é preciso coragem. “As pessoas têm muito medo do sofrimento. Mas quem não sente tristeza, não sente alegria. A emoção fica congelada”, diz a psicoterapeuta. “A mudança é um processo e é preciso ter paciência para enfrentar os percalços e recaídas”, completa.
O sofrimento fez parte da mudança de Márcia, Ou Letícia. Ou Márcia Letícia F. Aguiar, professora universitária de 39 anos. Ela foi casada por 17 anos e, depois da separação, deixou de ser Márcia para assumir a Letícia. O que começou com uma brincadeira tomou corpo. “Até então todo mundo só me chamava de Márcia. Agora estou em outra fase: a Letícia é mais pra cima, mais forte e independente. Está com medo, mas faz”, resume. Não que o casamento a oprimisse. “Meu ex-marido era companheiro, incentivador, estava sempre ao meu lado. Tanto que somos amigos até hoje. Mas percebi que abri mão da minha individualidade em prol da relação. Mulher faz muito isso”, analisa. “Hoje sei o que fiz, como me omiti e não vou errar de novo.”
Letícia levou três anos para finalmente decidir e tomar uma atitude. Mas nem todo mundo consegue dar seu grito de independência. Quem não se decide se coloca em situações que levam à mudança, mas que vem de fora. É o caso de quem não está feliz no casamento e passa a não se cuidar, não dar atenção ao parceiro. Ou, insatisfeito no trabalho, boicota: não cumpre prazos, chega atrasado, é displicente. “Se você não fizer nada, o movimento da vida faz por você”, afirma a filósofa Alba.
Ângelo, Benito, Letícia e Rômulo têm histórias diferentes, com pontos em comum. O maior deles: os quatro são mais felizes hoje do que antes de seu “independência ou morte!”
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