Dia desses li uma notícia que me intrigou: o narcisismo vai ser retirado do manual de diagnósticos de transtornos mentais, espécie de “bíblia” dos males da mente e da personalidade. A matéria trazia a diferença entre narcisista e egocêntrico. Esse primeiro sujeitinho é realmente um tanto mais complexo: tem uma autoestima nos “cornos da Lua”, como dizia meu amigo Valêncio Xavier, e muitas vezes erra no cálculo – para cima, é claro – sobre suas habilidades e potenciais. O narcisista não só acredita que é bom, corneteia isso o tempo todo e precisa que as pessoas a sua volta o aprovem constantemente.
Todo mundo conhece alguém assim. E agora, em plena era do Facebook, não é difícil ter um cara como esse no seu pé o dia inteiro precisando que você avalize até o seu “bom dia, sol”. Vejam, não estou falando que todo mundo que está no “feice” é narcisista, até porque estaria vestindo a carapuça. Mas realmente acho que a rede social dá muito menos em termos de conteúdo do que alardeia. No final, não passa de uma galeria, editada por nós, de divagações, uma janela para espiarmos o vizinho quando não temos nada para fazer. E, claro, alardearmos alguma opinião “bombástica” ou nos regozijarmos com algo “impressionante” que acabamos de fazer. É a era do look at me. É como se estivéssemos o tempo todo dizendo “olhe para mim”, “repare no que eu fiz”, “veja como eu sou moderno”, “olhe onde eu estou”…
Por isso minha surpresa. As redes sociais são o novo espelho dos narcisistas. Num mundo em que a tecnologia nos apresenta novas ferramentas de comunicação interpessoal a cada dia, o narcisismo não só deveria continuar a ser pesquisado, estudado, mas também tratado.
Até agora, a gente ainda pode limar o cara do nosso “feice” e, se ele reclamar, mandar o sujeito se tratar de distúrbio de personalidade narcisista. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais só vai ser reeditada em 2013. Até lá, os narcisistas, os mais populares dos transtornados mentais limados da publicação, ainda podem reverter o quadro. Em nome do diagnóstico correto, psiquiatras do mundo todo estão unidos para manter os narcisos no panteão dos desvios de personalidade. E eles, os próprios, devem encontrar uma maneira, bem narcisista, de se manter em evidência inclusive na “bíblia” da saúde mental.
*Danielle Brito é jornalista.
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