Histórico

Malditos portões

Adriano Justino
13/11/2006 00:29
Sem querer, apertei o botão que faz o portão da garagem fechar. O problema é que o carro ainda não tinha passado pelo portão. Resultado: a lataria vermelha do carro da minha cunhada ganhou uma marca preta. Para minha sorte, minha cunhada é uma pessoa gentil.
Pouco tempo depois, era eu que saía da garagem quando, sem querer, apertei o botão que fecha o portão. Não dava tempo de terminar de passar. Desesperado, só consegui pensar em uma reação razoável: buzinei. Curiosamente, o portão não tomou nenhuma atitude ao ouvir a buzina. Ignorou o meu apelo e – pof! – acertou a lataria vermelha do carro da minha mulher. Que, por sorte, é uma pessoa muito gentil.
O leitor pode pensar, a essa altura, que o botão da minha garagem é um aparelho sofisticado, difícil de entender. Ou, pelo contrário, que emperra muito, e que portanto dificulta a vida do motorista. Não, nada disso. O problema, como se diz na velha piada, é a peça atrás do botão.
Sempre fui um desastrado com carros. Nunca provoquei acidentes graves, só uma esbarradinha aqui e outra ali. Mas tenho sérios problemas em fazer as pequenas coisas envolvidas no processo. Exemplo: primeiro passar pelo portão, depois fechar a garagem.
Minha carreira de motorista começou no dia em que fui fazer meu primeiro teste no Detran. Vejam bem: foi o primeiro, mas estava longe de ser o último. Normalmente, as pessoas contam que reprovaram no teste do Detran ao tentar fazer a baliza de estacionamento. Não cheguei a tentar. A baliza é feita dentro de um pátio, no Tarumã. Ou pelo menos era, na minha época.
Para entrar no pátio, era preciso passar por um portão. De início, parecia tudo bem: não era necessário acionar nenhum portão automático. A entrada era larga e desprovida de qualquer obstáculo. Mas eu não passei por ela. Errei a mira. Quando o examinador do Detran freou, estava há poucos centímetros do muro. Tudo o que ele me disse foi: “Vou ter que pedir para você descer do carro”. Obedeci.
Passei no meu quarto teste, mais ou menos um ano depois. A primeira passageira a pegar carona comigo foi a minha corajosa mãe. Era de noite. No meio do caminho, começou a chover. Tentava desesperadamente ligar o limpador de pára-brisas, que insistia em não funcionar. Malditos carros! Virava a alavanquinha para cima, para baixo, e nada. Os pingos aumentando e eu lá, tentando enxergar a entrada do shopping, que por sorte era larga e sem portões automáticos.
Depois de algum tempo, descobri que estava acionando a alavanca errada. A do limpador de pára-brisas fica à direita. Na mão que não tem o relógio. A do lado esquerdo, lembrei mais tarde, era a da seta. Portanto, ao invés de limpar o vidro eu estava anunciando ao motorista de trás que ia virar à esquerda. Depois à direita. Depois à esquerda. Depois à direita. E assim sucessivamente. Se você que está lendo era o motorista atrás de mim, minhas sinceras desculpas. Deve ter sido uma noite tensa.
Hoje, dirijo há oito anos. Só bati uma vez, mas ninguém se machucou. Descobri que o importante é saber que não sou o Nelson Piquet. E dirigir devagar. Sempre dá certo. A não ser quando é preciso sair da garagem. Aí o melhor é ir rapidinho antes que o portão da garagem venha para cima de mim.

Rogério Galindo é repórter, blogueiro e só dirige quando necessário.
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