“Quando eu e seu pai não estivermos mais aqui, vocês só terão uma a outra.” Eu e minha irmã crescemos ouvindo essa frase da minha mãe. Parecia até um mantra. A cada briguinha entre as duas, discussão, bate boca ou puxão de cabelo e lá vinha a frase dita em alto e bom som.
Aos poucos aquela sábia lição materna foi fazendo sentido. Ainda pequenas nos tornamos grandes amigas. Companheiras de verdade.
Deve dar para imaginar o que senti, quando aquela guriazinha – que me ensinou a andar de bicicleta e a jogar pingue-pongue – anunciou que estava grávida. O meu bebê (como a vejo, apesar dela ser a mais velha) ia ter outro bebê, que eu, diga-se, já amava loucamente.
Esperar pelo parto foi uma loucura! Eu já não sabia por quem eu chorava mais. Lá, na sala de parto, estava minha maninha Fa, que apesar dos 29 anos e 1,80 de altura, me parecia uma criatura pequena e frágil demais para encarar aquele momento.
E a minha afilhadinha Anna Liz, prestes a chegar a um mundo tão complicado? Há tanto para dizer a ela: “não seja tão ansiosa; sempre ouça sua avó, ela sabe o que diz; não se decepcione muito com as pessoas, procure respeitar as diferenças; computador é legal, mas gaste mais tempo rodeada de amigos ao ar livre; é bom ter uma religião, acreditar em algo; respeite sempre sua mãe; vou estar sempre ao seu lado; os homens não são todos iguais, seu avô e seu padrinho são ótimos exemplos disso; bom-humor é fundamental e cabe em qualquer lugar e acima de tudo: seja bem-vinda ao mundo e divirta-se”.
E a pequena cresce rápido e a cada dia me deixa mais apaixonada. Quando vejo, lá estou eu fazendo mil barulhos, caras e bocas para vê-la gargalhar e dizer: “Adi” – a tentativa mais doce do mundo de me chamar de Madi.
Ser tia – e madrinha com muito orgulho – dá a idéia da maternidade, mas sem muita obrigação, sem muita responsabilidade. Um relacionamento leve e cheio de amor. Foi minha etapa de estréia no mundo das fraldas, mamadeiras, roupinhas infantis e por aí vai.
E tudo muda. Todo mundo fica menos egoísta, dá mais valor à vida, ao próximo. O papo com os familiares é um só: a última façanha da pequena. A árvore de Natal parece mais uma loja de brinquedos infantis. Na tevê, a prioridade é o desenho preferido da baixinha. Isso quando não está desligada e todo mundo em volta da fofura. Os horários estão mais regrados: agora tem hora do almoço, do lanchinho e da janta. E aquela bagunça de madrugada com som alto e conversa fiada foi substituída por leves espiadelas no berço do bebê, que dorme como um anjo. Aliás, nada paga a satisfação de fazê-la dormir no meu colo.
Ainda não sou mãe, mas com a chegada dessa flor posso imaginar o que me espera. Agora, uma coisa é certa: antes da maternidade não há nada melhor do que ficar para titia.
Luciane Horcel é jornalista, repórter da Gazetinha, casada com o Erlon, e o seu passatempo preferido é ouvir o som das boas risadas da sobrinha-afilhada Anna Liz, de 1 ano e 2 meses – que tem os olhos, as mãos e o bom-humor da madrinha.
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