Lisboa – Quem vai a Lisboa com a imagem de que a cidade se resume a bacalhau e fado, que se prepare. Nos últimos anos, a capital portuguesa ganhou boas opções de casas noturnas, restaurantes, bares e cafés. O que têm atraído mais turistas, em especial os mais jovens.
Tal mudança se nota facilmente. Ao aguçar os ouvidos pelas ruas, percebe-se que o jeito brasileiro de falar não é mais o único ruído a destoar do sotaque dos lusitanos. O francês, o espanhol, o italiano e, principalmente, o inglês dos britânicos tornaram-se habitués do universo sonoro lisboeta. Em especial na vida noturna, que atrai pela variedade, preço baixo e, no caso específico dos gringos, proximidade. Lisboa está cosmopolita.
O melhor lugar para sentir essa transformação é o Bairro Alto. Pelas ruelas estreitas da mais conhecida boemia da capital portuguesa, a tradição lusa se mistura às influências trazidas pelos visitantes. Nos cerca de 250 estabelecimentos espalhados pelas casinhas baixas da típica arquitetura portuguesa – que vão das mais simples tascas (o equivalente aos nossos botequins) a baladas de música eletrônica ou apresentações de jazz –, os portugueses unem-se aos estrangeiros para se divertir. O que faz da noite do Bairro Alto uma excelente porta de entrada para brasileiros na Europa: hábitos e histórias que nos são pitorescos, misturados aos mais variados sotaques do Velho Continente.
“Hoje há uma redescoberta da cidade. Lisboa não é mais aquela cidade antiga, das ruas pequeninas e escuras. Está diversificada e oferece o que os brasileiros procuram em outros pontos turísticos europeus. Continuamos com os sabores originais de Portugal, mas com novas caras”, reforça o presidente-adjunto da Associação de Turismo de Lisboa, Mário Machado.
No Bairro Alto, a dica é interagir. Na infinidade de bares, o entra e sai para tomar um trago e fazer novas amizades é intenso. A conversa rola solta e em várias línguas. Para chegar aos bares, uma das opções é subir por um dos eléctricos (como eles chamam os bondinhos). Mas o ideal é ir caminhando.
É preciso fôlego para subir as ladeiras, desde o pé do bairro, na Avenida da Liberdade, ainda na Baixa Pombalina, ao topo. Porém, o esforço, que serve de aquecimento para a noite propriamente dita, é recompensado. À medida em que sobe, o visitante vai entrando no ritmo da noite de Lisboa, sentindo os cheiros dos petiscos a cada tasca que passa. E não estranhe se algum português o convidar para bebericar uma cerveja ou vinho e provar um belisco. A simpatia também está presente na subida ao Bairro Alto.
No caminho, há ainda o encontro marcado com o mais notório frequentador da boemia lisboeta, o poeta Fernando Pessoa, imortalizado na estátua em frente ao Café A Brasileira, no Chiado, bairro intermediário entre a Baixa e o Bairro Alto.
Os preços da noite de Lisboa também são bem atrativos em relação aos padrões europeus. Pode-se ir a uma discoteca por 12 euros (perto de R$ 30), incluindo entrada e consumação. Com este valor, consome-se o equivalente a quatro cervejas ou duas bebidas destiladas, em festas que muitas vezes estendem-se até as 7 ou 8 horas da manhã.
“Nossos hóspedes brasileiros, quando passam por outros países europeus antes de Portugal, se surpreendem com a noite lisboeta pelo custo e variedade”, confirma João Pires, gerente do Hostel Travelers House, eleito por três anos seguidos o melhor albergue do mundo pela bandeira Hostelworld em votação popular pela internet.
Cenário compensa caminhada
Caminhar por Lisboa é uma maneira prática de conhecer a cidade. Há o desconforto das ladeiras. Mas cada respirar ofegante é compensado pelos pontos de contemplação ou de boa comida.
O ideal é começar o passeio de bonde – eléctrico, como eles chamam. O mais indicado é o 28, que corta a capital em um percurso de 30 minutos, passando por igrejas, mirantes e parques. O recomendável é tomá-lo entre 8h30 e 9 horas para evitar a lotação de turistas. O preço é de 2,85 euros (perto de R$ 7,10).
O ponto de partida mais recomendável é o do Largo Martins Moniz. No trajeto pelas ruelas da Graça, o bairro mais popular de Lisboa, o turista vira expectador da rotina dos moradores: senhores com os típicos bigodes, comerciantes de papo com fregueses, quitandas com frutas na calçada, senhoras pendurando roupas nos sobrados, fachadas de azulejos ricos em detalhes, mais o vaivém de imigrantes africanos, indianos e chineses.
O Miradouro da Graça é um bom ponto de partida para a caminhada em direção ao Castelo de São Jorge. Ainda no mirante, vale um café para admirar a vista: do Rossio à Ponte 25 de Março.
Até o São Jorge há seis igrejas. Mais a Sé, na descida do castelo, a primeira de Lisboa, cujo prédio até o fim da dominação moura no século 12 sediava uma mesquita. Ao pé do castelo, outro mirante, o Portas do Sol, de onde se tem a visão da Alfama e mais ampla do Tejo. Na lateral está o mais antigo muro da cidade, erguido pelos visigodos, oito séculos antes de Cristo.
Do Castelo de São Jorge, tem-se a visão de praticamente 360 graus da cidade. O preço da entrada é de 7 euros (perto de R$ 17,50, mas há desconto para estudantes), aberto das 9 às 21 horas, de março a outubro, e das 9 às 18 horas, de novembro a fevereiro. A tomada do lugar pelo rei Afonso Henriques em 1147 marcou a derrocada da invasão moura em Portugal. O espaço guarda vestígios arqueológicos, mas boa parte da edificação foi reerguida entre 1938 e 1940, de forma idêntica ao período medieval.
Depois do castelo, a caminhada até a Praça do Rossio leva ao encontro de um personagem comum à história brasileira e portuguesa: dom Pedro IV, o nosso dom Pedro I, eternizado em estátua e que dá o nome oficial ao largo.
Se for hora do almoço, a dica é comer em um dos típicos restaurantes populares do bairro, onde a comida é farta e barata. Como no Granja Velha, que serve pratos como pataniscas (bolinho de bacalhau amassado) com arroz de grelos (couve), dobradinha ou carapaus (um primo próximo da sardinha) por 6,80 euros (R$ 17) a porção individual e 9,80 euros (R$ 24,50) para duas pessoas. Você pode também pode entregar-se às delícias infindáveis das confeitarias – ou pastelarias, como eles chamam lá.
Nas lojas de bebidas da região são encontrados os melhores vinhos do Porto, a partir de 7 euros ( R$ 17,50), custam cerca de R$ 50 no Brasil. Para quem caminhou tanto, é como se fosse o pote de ouro no fim do arco-íris.
O jornalista viajou a convite da Associação de Turismo de Lisboa.
Colunistas
Agenda
Animal


