Viajantes se apressam para conhecer regiões antes que elas mudem para sempre
New York Times
11/04/2018 17:00
Turistas fotogragam o Vale da Morte, na Califórnia. Foto: Roger Kisby/The New York Times. | NYT
Existe um novo tipo de item na lista de desejos que é conhecido informalmente como “última chance de viagem”.
A vida das ruas em Cuba se enquadra nessa categoria. Assim como os rinocerontes negros e as geleiras ao redor do mundo. À medida que culturas locais e habitats naturais são transformados pela globalização, pela tecnologia e pelas mudanças climáticas, um número cada vez maior de viajantes querem experimentá-los antes que sejam irrevogavelmente alterados ou desapareçam.
Ruas de Havana. Foto: Enrique de la Osa/Reuters.
Amit Sankhala, dono da Encounters Asia, de Nova Délhi, tornou-se guia de turistas, a maioria deles da América do Norte, há 14 anos. Agora, segundo ele, mais clientes estão expressando o desejo de ver um lugar ou uma espécie de animal antes que seja tarde demais. Eles estão “mais e mais conscientes de que as coisas vêm desaparecendo”.
Dan Austin, dono da agência de viagens Austin Adventures, diz que quase diariamente responde questões sobre o estado das geleiras no Alasca, das Rochosas canadenses ou do Parque Nacional das Geleiras. Seu número de geleiras diminuiu de 150 em 1910, quando o parque foi criado, para 26.
Esse é o tipo de número que mantém Ken Lyons, de Ridgewood, Nova Jersey, viajando para ecossistemas de três continentes. Na Geleira Exit, no Parque Nacional dos Fiordes de Kenai, no Alasca, marcadores físicos mostram a redução da geleira ano a ano e, “à medida que você avança na subida da trilha, os sinais ficam mais distantes uns dos outros porque quantidades maiores estão derretendo a cada ano”, conta Lyons.
David Moore and Ken Lyons in Badwater Basin in Death Valley National Park, famous for its stargazing, in California, Feb. 27, 2018. Travel agencies are seeing a sharp rise in the number of people who want to glimpse disappearing marvels or experience changing cultures before they are gone or irrevocably altered. (Roger Kisby/The New York Times)
Este ano, ele viajou para o Vale da Morte na Califórnia para ver a biodiversidade e o céu noturno, famoso pela visão que proporciona das estrelas. “A gente nunca sabe como as coisas vão mudar”, diz ele.
Locais raros
Andy Biggs, que liderou safáris fotográficos na África e em outros lugares remotos por 15 anos, afirma que enquanto alguns de seus clientes estão em busca de um troféu fotográfico, outros querem ter a chance de experimentar o destino da maneira como está agora. Eles desejam ver lugares intocados e espécies ameaçadas, conta.
Uma pesquisa com os visitantes da Grande Barreira de Corais, na costa da Austrália, descobriu que quase 70 por cento responderam que desejavam “ver os recifes antes que desapareçam” como primeira motivação para a viagem.
Marilyn e Paul Schlansky contaram que gostam de viajar para lugares não muito comuns, destinos como Mianmar e Mongólia, onde as culturas estão mudando. “É difícil prever quando alguma coisa vai desaparecer. Você não tem certeza do quanto está mudando até que chegue lá”, explica Paul.
Vivenciando experiências
Em viagens com a agência Overseas Adventure Travel, os Schlansky participaram de excursões “Um Dia na Vida”, que incluem fazer chá de iogurte em uma tenda nômade, coletar esterco como combustível e fazer tecidos. Os guias locais também gostam de reforçar a maneira como a modernidade está se aproximando, mostrando como, por exemplo, garrafas plásticas de água são recolhidas e usadas como material de construção.
Alguns viajantes desejam mais do que apenas testemunhar os ambientes e as maneiras de vida que estão mudando, afirma Sankhala, então procuram experiências de imersão como fazer refeições na casa de alguém em vez de ir a um restaurante local. “Eles não querem apenas olhar para um monumento. Esperam conhecer pessoas reais ligadas à história daquele monumento”, conta.
Melissa Bradley, que possui a agência de viagem Indagare, em Nova York, afirma que vem levando pequenos grupos para destinos como Namíbia, Ruanda, Butão e Madagascar. “É mágico se sentir como um explorador, e essa é uma experiência difícil de se ter hoje em dia”, diz.
Antes de todos
Quando um novo destino surge ou ganha popularidade, alguns viajantes querem visitá-lo antes que outros o descubram e mudem o sabor local, explica ela.
Bradley conta que levou um grupo para o Irã. “As pessoas nos paravam nas ruas para perguntar sobre nossas vidas e falar da delas”, afirma. Ir a um lugar onde trocas autênticas entre culturas ainda acontece é um prêmio para os viajantes, acredita.
As multidões podem chegar rapidamente. O número de visitantes estrangeiros na Islândia cresceu de um milhão para 1,8 milhão entre 2014 e 2016, segundo o Conselho de Turismo da Islândia.
Reykjavik, capital da Islândia. Foto: Divulgação
Cerca de 4,7 milhões de pessoas visitaram Cuba em 2017, um aumento significativo em relação ao ano anterior, apesar dos danos do furacão que passou por lá em setembro. Austin afirma que seus clientes querem ir para Cuba “enquanto ainda está meio crua”. Bradley diz que algumas pessoas acham que já perderam a chance.
Impulsionador do crescimento
Apesar de um número muito grande de turistas ser capaz de acelerar o declínio de uma região natural, Sankhala afirma que o turismo pode ser uma fonte importante de receita para áreas isoladas.
Os turistas interessados em destinos remotos são também tipicamente aqueles que querem uma visita que ainda promova “conservação, sustentabilidade e uma pegada de carbono pequena”, explica.
Os países também podem controlar o número de visitantes e seu impacto. A indústria de ecoturismo da Costa Rica é um bom exemplo disso, segundo Austin. “Eles usam sua popularidade para trazer fundos ao mesmo tempo em que preservam habitats e ecossistemas.”
“Temos visto um enorme aumento no número de pessoas que viaja para lugares que correm o risco de sofrer grandes mudanças”, diz Bradley.