Comportamento

Mudar dói, mas é bom!

Danielle Brito - danielles@gazetadopovo.com.br
08/02/2009 02:08
“Que atire a primeira pedra quem nunca viveu uma crise”, diz Eugenio Mussak. É na base da objetividade que o médico formado pela Universidade Federal do Paraná hipnotiza plateias e firma-se como um dos principais conferencistas brasileiros na área do comportamento humano. Escritor e cronista, ele lançou no fim de 2008 Caminhos da Mudança, sobre a imperativa necessidade de estarmos nos transformando, de dentro para fora, num mundo tão impermanente. Ele diz acreditar que os autores de auto-ajuda “têm colaborado com o pensamento e a atitude de muita gente, no mundo inteiro, desde 1937, quando Dale Carnegie lançou seu Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”. Porém, recusa o rótulo: “Meus livros não apresentam fórmulas, e sim estímulos ao pensamento. São reflexões que têm base em minhas experiências de vida, mas que bebem na fonte de várias áreas do conhecimento, incluindo a literatura universal.” Mussak deu a seguinte entrevista ao Viver Bem:
Geralmente, pessoas que mudam muito – de cidade, de emprego, de parceiro, de opinião – são malvistas, tidas como inconstantes. Isso é real?
Sim e não. É fácil perceber se as mudanças que a pessoa promove derivam da inconsistência de sua vida, da falta de projetos concretos, da fragilidade de sua estrutura pessoal, ou se pertencem à busca do aprimoramento e do crescimento de sua carreira. Antigamente era feio alguém mudar de emprego muitas vezes. Dizia-se que essa pessoa estava “sujando a carteira”. Hoje, quando uma pessoa fica muito tempo em uma empresa na mesma função, dizem que ela está estagnada na carreira. É comum um executivo trocar uma empresa por outra para depois voltar à primeira, em uma posição superior. A experiência de mercado faz bem à carreira pois abre os horizontes. Quando bem pensada, a mudança é benéfica e acaba sendo aplaudida pelos demais. Eu mesmo já realizei movimentos de mudança pelos dois motivos, e sempre foi para melhor.
Por que para algumas pessoas é tão difícil mudar?
Todas as pessoas têm uma forte tendência a buscar a chamada “zona de conforto”. Ela é mais segura pelo simples motivo de ser conhecida. Mudar significa enfrentar o desconhecido, o misterioso, e este sempre oferece perigo. Não é pequeno o número de pessoas que se acomodam em empregos, casamentos, moradias, relações e hábitos que elas, conscientemente, acreditam que seria bom mudar. Mas simplesmente não conseguem romper a barreira da zona de conforto. Entre o medíocre e o perigoso, preferem o primeiro. Uma vez uma amiga me confidenciou que sabia que seu casamento estava fracassado, mas ela se mantinha nele porque, afinal, não era tão ruim assim. “É um casamento ‘meia boca’” – ela me disse – “Se fosse ruim, seria melhor”. Parece uma contradição, mas um casamento ruim é melhor que um medíocre, porque pelo menos facilita a tomada de atitude. O medíocre se acomoda porque sempre há a expectativa de melhora. Só que o tempo vai passando…
Você coloca a esperança sob diversas óticas – da religião à filosofia –, e chega a conclusão de que ela é essencial para a vida. Por quê?
A esperança é a antecipação do prazer. Perder a esperança significa conformar-se à derrota, ao infortúnio. Viktor Frankl sobreviveu aos horrores do campo de concentração porque construiu, para si mesmo e para seus companheiros, uma segunda realidade, com a Europa em paz, melhor do que era antes da guerra. E, nesta realidade imaginária deslocada no tempo, ele colocava toda sua emoção. Na realidade presente, sobre a qual não tinha nenhum poder, ele colocava a razão, para encontrar alternativas de sobrevivência. Foi a esperança de reencontrar sua mulher, de retomar sua carreira e de conhecer um mundo melhor que o manteve vivo e lúcido em Auschwitz. Ele usou a esperança como estratégia de sobrevivência. Entretanto, é necessário diferenciar a esperança vazia daquela que tem base na possibilidade real. Esperançar é diferente de esperar. Quem simplesmente espera não tem esperança, tem conformidade. Tem esperança quem tem objetivos claros e luta por eles. Faz sua parte na construção da própria história.
O que às vezes consideramos como perdas, você distingue como ciclos de vida. É bastante difícil saber quando um ciclo chegou ao fim, não?
É difícil, sim. Escutar a voz da razão às vezes é extremamente complicado, porque somos fortemente influenciados por nossas emoções. Às vezes achamos que perdemos uma pessoa, quando o que realmente aconteceu foi que a relação chegou a seu fim, só que isso é mais perceptível por um dos lados. O que um considera uma perda o outro considera o fim de um ciclo. É raro que uma relação termine com consenso absoluto, pois há diferenças de percepção. Por isso o diálogo é tão importante. O mesmo acontece em todas as áreas da vida. Quando um filho sai de casa, os pais sentem um vazio imenso, uma perda. Entretanto, isso pertence a um ciclo absolutamente natural e desejável. Ruim seria se ele não fosse viver sua própria vida. Temos que perceber o estágio de ciclo em que se encontram nossas relações, nossa carreira e até nosso vigor físico. Sempre é possível administrar os ciclos, até prolongá-los um pouco, mas não há ciclo que não se feche nunca. É a lei da vida.
Alguns são ainda mais suscetíveis a sofrer com as mudanças porque de alguma forma foram poupados durante suas vidas. Como os pais devem agir para assegurar uma vida tranquila aos filhos sem os colocar em uma redoma que os transforme em pessoas pouco resilientes?
Acredito que a maior prova de amor dos pais é dar autonomia para seus filhos, pois isso lhes dará liberdade, responsabilidade, resistência. Se eu pudesse voltar no tempo, a única coisa que faria diferente seria não fazer por meus filhos o que eles mesmos poderiam ter feito. Não se trata de atitude egoísta, ao contrário, é uma sinal de preocupação com educar para a vida.
A raiva pode ser um combustível para se construir alguma coisa?
A raiva é um sentimento pouco nobre, mas inevitável, pois todos somos humanos. O importante não é não sentir raiva, e sim, canalizar essa energia de forma produtiva, construtiva. Até porque, se não for assim, a força da raiva volta-se para quem a sente, e não para quem é o objeto que a desencadeou.
E as crises, para que servem?
Que atire a primeira pedra quem nunca viveu uma crise de qualquer natureza. Financeira, profissional, emocional, ou mesmo de saúde. E levante a mão aquele que não se revoltou com a crise enquanto a estava vivendo, e que não sentiu que ficou melhor depois que ela passou. A crise exige tudo de nós, libera as forças que estavam adormecidas e nos aprimora imensamente. Uma crise pode deixar a pessoa melhor, acredite. Aliás, saiba que você não será julgado pelas crises que teve – pois elas são inesperadas –, e sim pelo que você fez com elas.
Em seu livro, aparece muitas vezes a palavra “método” como um dos segredos para se levar uma vida plena. Como funciona esse método realmente?
Método é a base da ciência, e é também a demonstração da existência de um pensamento estruturado, racional, lógico. O método permite a replicação de um procedimento, o aprimoramento de uma ação. Não é possível viver sem criar alguns métodos, em todas as instâncias da vida. O que não significa que precisamos ficar presos aos métodos, pois eles também devem evoluir, transformar-se, mudar.
Em seu último filme Vicky, Cristina, Barcelona, Woody Allen coloca na boca de um dos personagens que o amor romântico só existe quando não é concretizado. O que você pensa disso? Porque é tão difícil conviver com o outro?
Woody Allen é um gênio e este filme é um dos melhores que ele fez nos últimos tempos. Nele assistimos ao desenrolar da vida de várias pessoas, com suas dúvidas, buscas, certezas, encontros, desejos, sonhos. Contém várias metáforas que desnudam a alma, fazem pensar, provocam identificações imediatas. Acredito que a referência ao amor romântico perder sua essência quando praticado, refere-se à imagem do amor platônico. Para Platão, há dois mundos: o das ideias e o dos sentidos. E o único perfeito é o mundo das ideias, pois os sentidos nos traem frequentemente, não sendo, portanto, confiáveis. Eu, entretanto, acredito que, mais dificil do que viver com o outro é aceitar que não convivemos com o outro ideal e sim com o outro real. Mas é exatamente nessa descoberta que encontramos a beleza da aventura de compartilhar uma vida com alguém.
Serviço
Caminhos da Mudança; Eugênio Mussak; Integrare Editora.