Comportamento

Paranaense é o mais fiel dos brasileiros

Érika Busani
19/11/2006 23:30
erikab@gazetadopovo.com.br
Após uma pesquisa com mais de 7 mil pessoas, traçando o perfil sexual do brasileiro, a psiquiatra Carmita Abdo, uma das maiores especialistas em sexualidade do país, lança Sexo Pode Ser – Menos Mito e Mais Verdade, livro de bolso com impressões da pesquisa. Presente no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Curitiba, ela falou ao Viver Bem.
Ainda existe muita desinformação sobre sexo?
Com certeza, muito mito. Se considera que o brasileiro está sempre pronto para o sexo, não tem nenhuma dificuldade, mas a disfunção erétil, por exemplo, acomete 45% dos homens, em diversos níveis. Mais de 30% se queixaram de disfunção mínima, que acontece poucas vezes, mas de forma repetitiva.
Os males da vida moderna estão afetando a vida sexual?
Os fatores que levam ao risco da disfunção erétil são exatamente os fatores da vida moderna, estresse, tabagismo, beber em excesso, uso de drogas, sedentarismo, obesidade. Não dá para ter saúde sexual sem ter saúde geral.
O brasileiro está satisfeito com sua vida sexual?
Apesar de existir metade dos homens se queixando de falta de ereção em alguma medida, o brasileiro em 70% dos casos diz que o sexo é de bom a excelente. Isso é comprovado pelo número de relações sexuais praticadas, duas a três por semana, que é bastante alto. O brasileiro continua tentando, insistindo. Apesar das falhas ele não desiste porque o sexo para ele é muito importante.
Não há uma diferença entre o discurso e a prática?
Com certeza. Aquilo que o brasileiro nos confessou nesse questionário anônimo e o que ele próprio respondia cara-a-cara, é completamente diferente. Dá para entender que é muito difícil assumir falhas sexuais num país onde a cultura da virilidade masculina e da sensualidade feminina são uma exigência que cada um faz a si e cobra do outro.
Há muitas diferenças de perfil por região?
Nós percebemos que existe diferenças em relação a alguns detalhes. Mas nível de instrução e idade influenciam mais que região.

Por que nível de instrução?

Quanto mais acesso à educação o indivíduo tem, mais acesso à saúde e menos mitos, menos tabus, levando a melhores condições de realização do sexo. A disfunção erétil acomete muito mais homens que têm nível fundamental de ensino do os com nível universitário. Por isso que, cada vez mais, temos de lutar por mais educação e mais saúde para o nosso povo. Um homem com disfunção sexual produz menos no trabalho, tem conflitos com a esposa e com os filhos, é profundamente perturbado, com a auto-estima muitíssimo prejudicada e acaba não favorecendo a sua própria parceira no relacionamento porque ele está muito mais preocupado consigo do que com ela.

Como é o perfil sexual do paranaense?

Tanto o homem quanto a mulher se destacam por serem os mais fiéis dos brasileiros. Nós temos índices de infidelidade da ordem de 26% em mulheres e 50% em homens, em média. No Paraná, 19% das mulheres são infiéis e 42% dos homens. Os maiores índices de infidelidade chegam a 64% dos homens na Bahia e 35% das mulheres no Rio de Janeiro.

Seria uma sociedade mais reprimida?

Não, porque o paranaense não se destaca por índices maiores de doenças sexuais. Não têm um problema a mais a preocupar.

Quais são os principais mitos que persistem no imaginário da população?

Para o homem, é o do tamanho do pênis. Ele ainda acha que quanto maior, melhor o prazer que ele pode proporcionar. Outro é que se deve ter cautela com a mulher que toma iniciativa no sexo, porque ela pode vir a ser uma parceira infiel. A mulher acha que o homem está muito interessado em como ela está do ponto de vista da estética e só a partir daí é que ela vai poder desempenhar um bom sexo. Ela acaba não se envolvendo no ato e não se tornando uma parceira interessante.

Quais são as dificuldades da mulher?

A brasileira é a mulher mais sensual do mundo, mas nem por isso é a que está sentindo mais prazer. 30% das mulheres entre 18 e 25 anos se queixam da falta de orgasmo. E 30% das mulheres acima dos 60 anos já não têm mais desejo. A melhor fase da vida sexual da mulher é dos 26 aos 60. É o período no qual ela está mais resolvida, e ainda não perdeu a vontade de fazer sexo. O climatério interfere negativamente na vontade de fazer sexo pela perda hormonal. A reposição hormonal preserva não só o desejo sexual, mas também a memória, a condição óssea, ou seja, a saúde geral da mulher.

Apesar de toda a liberação, a mulher ainda é reprimida?

A mulher tem uma educação muito pouco favorecedora da sua sexualidade. Enquanto o homem é incentivado desde pequeno, a mulher é desaconselhada a se sentir à vontade com sua sexualidade. Elas estão de parabéns porque quando chega na idade do exercício da sexualidade a dois, estão bastante envolvidas com a idéia e se superam em pouco tempo.

O que é uma educação sexual de qualidade?

A melhor educação sexual é aquela que se dá em família, porque o pai e a mãe conhecem o seu filho e sabem quando e até onde explicar essa ou aquela situação. A educação sexual não deve se adiantar à fase da criança. Cada uma está vivendo um nível de curiosidade e de necessidade de conhecimento. Não adianta despejar uma série de conceitos que a criança não pode assimilar. Não se pode ter medo que as informações façam o interesse pelo sexo crescer. Ele existe na criança naturalmente. Não basta colocar a camisinha dentro da bolsa da filha ou da carteira do filho. Isso leva uma mensagem negativa. Se os pais não conseguem falar desse assunto de uma forma aberta e franca, o adolescente vai entender que aquilo é algo que tem que se tratar por baixo do pano e de forma camuflada. E isso não é algo que se quer para a vida sexual dos nossos filhos, mas que eles possam realizar uma sexualidade bastante franca, positiva e com proteção.