Ao contrário de outras épocas, quando se podia suspeitar de uma traição, mas não confirmá-la, hoje as mensagens garantem a prova. Advogados especialistas em divórcio afirmam ter percebido, no ano passado, um aumento no número de casos em que o cônjuge traído apresentou mensagens de texto como prova do deslize do parceiro ou parceira. Neste semestre, a American Bar Association – ABA (espécie de OAB dos Estados Unidos) começou a oferecer seminários para advogados de família sobre como usar provas eletrônicas – mensagens de texto, histórico de navegação na internet e redes sociais – para vencer um litígio.
“Que desculpa se inventa quando o que aconteceu está bem ali, escrito preto no branco?”, pergunta Mittchell Karpf, um advogado especializado de Miami, também responsável pela seção de assuntos de família da ABA. “No momento em que o outro aparece com um punhado de textos, não tem volta.”
Embora a maioria dos usuários já saiba que e-mails permanecem nos computadores mesmo depois de deletados, mensagens de texto são muitas vezes consideradas mais efêmeras – escreve-se, aperta-se “enviar” e lá vão elas para o espaço. Mas os textos podem continuar armazenados nos telefones de quem os envia e de quem os recebe, e mesmo depois de apagados as operadoras os mantêm arquivados por dias ou até algumas semanas. A AT&T afirma guardá-los por, no máximo, 72 horas, enquanto a Verizon mantém as mensagens armazenadas por um período de cinco a dez dias.
Os advogados prevêem que o número de casos aumente à medida que os usuários mais jovens de telefones celulares, mais afeitos a teclar mensagens do que a uma conversa, comecem a se casar. Os textos já superam as chamadas de celular à proporção de três para uma, segundo a Nielsen Co. As mensagens enviadas ou recebidas chegaram a 584 por pessoa no último trimestre de setembro, um salto de 60% em relação ao mesmo período do ano passado.
Na raiz de tudo está a questão da privacidade – ou melhor, da crescente falta dela em nossa cultura do exibicionismo digital. Mensagens de texto são terreno de privacidade, assim como chamadas telefônicas, dizem os especialistas em legislação. Mas, se o aparelho de um cônjuge que trai faz parte do plano-família da operadora ou fica regularmente desbloqueado e largado na mesa de jantar ou no criado-mudo, é de se imaginar que aquele parceiro ou parceira desconfiado de infidelidade vai se achar no direito de fuçar na caixa de entrada de mensagens.
“Quem tem coisas realmente particulares a tratar, provavelmente não deveria fazê-lo por um texto de celular”, diz Marc Rotenberg, diretor-executivo do Electronic Privacy Information Center, um grupo de pesquisas sobre questões de interesse público baseado em Washington.
No caso de Tiger Woods, Jaimee Grubbs, ex-garçonete, veio a público com mensagens que dizia ter recebido de Woods imediatamente após o surgimento de rumores de que ele estaria enfrentando problemas conjugais quando enfiou o carro num hidrante e numa árvore no Dia de Ação de Graças. Desde então, várias outras mulheres declararam ter, elas também, ido para a cama com Woods, que se absteve de desmentir as alegações, dizendo em nota apenas que se desculpava pelas “transgressões” cometidas e pedindo que deixassem sua família em paz.
“Pecados de ordem pessoal não deveriam ser assunto de press-releases, ou problemas familiares pretexto para confissões públicas”, disse Woods.
Outros, como Kwame Kilpatrick, ex-prefeito de Detroit, foram descobertos porque se comunicavam por celulares e pagers de uso oficial. Kilpatrick mentiu sob juramento sobre ter mantido um caso com uma assessora, mas suas mensagens de texto revelaram a verdade. No primeiro semestre, o governador de Nevada, Jim Gibbons, foi acusado pela esposa, na papelada do divórcio, de ter mandado mais de 800 mensagens para uma amante em 2007. O acusado respondeu que se tratava de uma amiga, mas pagou ao Estado 130 dólares pelos textos que enviara de seu telefone.
Porém, o mais comum é, depois da suspeita, ocorrer uma confrontação. Doug Hampton, funcionário e amigo de longa data de Ensign, contou recentemente no programa Nightline, da ABC, que ficou chocado ao emprestar o celular do chefe para ligar para a esposa, Cynthia Hampton, no final de 2007, e a descobriu na agenda do aparelho sob o nome de “Tia Judy”. Hampton afirmou ter encontrado uma mensagem incriminadora e confrontado os dois amantes durante um jantar de Natal, poucos dias depois.
Numa pesquisa sobre redes sociais realizada recentemente com 2,3 mil adultos, a Pew Internet e o American Life Project mostraram que 12% dos entrevistados – ou seja, um em oito – declaravam já ter colocado informações on-line de cuja divulgação se arrependeram mais tarde. Postar em redes sociais não é a mesma coisa que mandar uma mensagem de texto. Mas Lee Rainer, diretor do projeto da Pew, não concorda que daí se possa concluir que existe uma mudança cultural generalizada e que as pessoas estão se tornando cada vez mais descuidadas ao revelar informações pessoais que depois não conseguirão recuperar.
“Uma coisa é escrever um recado particular para alguém que o mostrará para as duas melhores amigas”, pondera Rainie. “Bem diferente é declarar por mensagem de texto uma paixão irremediável e virar motivo de chacota. O que parecia algo íntimo e anônimo quando foi escrito, talvez, na verdade, não seja. Pode ser amplamente compartilhado, ir passando de pessoa para pessoa.”
Sherry Turkle, professora e pesquisadora do Massachusetts Institute of Technology, vem estudando a interação das pessoas com a tecnologia há mais de duas décadas. Ao contrário da relação que mantêm com seus computadores, afirma Turkle, os consumidores criam com seus celulares uma profunda ligação pessoal. É onde guardam sua lista de contatos e suas fotos de família. “Carregam esses aparelhos nos bolsos”, lembra ela, “grudados à pele.”
Uma mulher com quem a pesquisadora conversou para um de seus estudos, de tão transtornada por não encontrar o celular, descreveu a perda como uma espécie de morte. “As pessoas sentem que aquilo é uma extensão de seus corpos e mentes”, diz a professora, mas acrescenta: “Como Peter Pan, não enxergamos nossa sombra eletrônica até que nos mostrem que está ali. Achamos que ela não existe”.
Provar um adultério não é a única utilidade de uma mensagem de texto para um advogado especializado. No ano passado, Karpf, o advogado de Miami, representou num caso de divórcio um marido cuja esposa reivindicava a guarda exclusiva do filho do casal. A mulher alegava que o marido a havia abandonado e à criança. Ele contra-argumentou dizendo que fora embora por ter sido fisicamente agredido. Ela negou a acusação até o momento em que Karpf apresentou uma série de mensagens em que a esposa se desculpava com o marido por seu comportamento. “Ela ganhou a causa para mim”, conta Karpf.
Robert Stephan Cohen, o advogado que defendeu a ex-modelo Christie Brinkley quando de seu divórcio do arquiteto Peter Cook, acha que um cônjuge descobrir a traição do parceiro ou parceira lendo suas mensagens particulares causa profundo impacto na maneira como esses casos passam a ser tratados, tanto nos tribunais quanto entre amigos e familiares. Cohen prevê que até os mais corriqueiros casos de separação vão virar brigas feias, com mensagens e mais mensagens usadas como provas.
“É muito diferente de uma fofoca que corre sobre um marido saindo para jantar com uma beldade a tiracolo”, diz ele. “A história é jogada na cara do cônjuge traído, que lê e relê aquilo. É cruel e doloroso.”
Tradução: Christian Schwartz
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