Comportamento

Por que abandonei minhas caixas de e-mail

Adriano Justino
01/04/2007 19:06
Londres – Desisti do e-mail. Ou quase isso… Há uma semana, preparei uma mensagem automática para informar meus amigos que eu não leria mais e-mails – e que, além disso, eles deveriam entrar em contato comigo me ligando ou mandando uma carta, como nos velhos tempos. Há algum tempo, comecei a ficar dependente do meu computador de uma maneira cada vez mais preocupante.
Deletar 200 spams por dia é um saco! Percebi que eu estava checando constantemente meu e-mail em vez de me dedicar realmente ao trabalho, que consiste em ler e escrever. Enfim, o e-mail estava me distraindo e me deixando aflito ao invés de estar me ajudando. Também levei em consideração que parte das minhas decisões poderia ser resolvida mais rapidamente com uma simples ligação – no lugar de cinco e-mails.
A reação dos meus amigos variou bastante. Passei a ter ótimas conversas por telefone com pessoas com as quais eu não falava há pelo menos dois anos. Outros, no entanto, me acusaram de “alternativo” e radical. Para esses, faço questão de lembrar que eu ainda tenho um número de telefone e um endereço físico, então não posso ser apontado como um eremita.
Temos que ponderar se as tecnologias digitais, em vez de facilitar as comunicações, não estão fazendo o contrário. Hoje, sentamos em nossos cubículos disparando zeros e uns no éter. Escritórios são silenciosos. Como já disse John Lennon: “Everybody’s talking, but no one says a word” (“Estão todos falando, mas ninguém diz uma palavra”).
Junto de minha política “e-mail zero”, resolvi usar com mais freqüência os maravilhosos serviços dos Correios, enviando cartas e cartões-postais aos meus conhecidos. Redescobri um imenso prazer no ato de escrever uma carta de verdade, colocá-la num envelope e comprar um selo. Outra grande diversão é receber essas cartas reais.
Até agora tudo está dando certo. Minha vida não desmoronou, não desapareci da face da Terra e me sinto muito menos estressado. Tudo bem, devo admitir que amarelei e não fui até as últimas conseqüências. Mantenho um e-mail de emergência que funciona como um arquivo jornalístico. Pensando bem, é melhor não ser um fundamentalista.
Tom Hodgkinson é editor-chefe da revista The Idler, publicação britânica especializada em discutir maneiras alternativas de trabalhar e viver.
Tradução: João Paulo Pimentel