Saúde e Bem-Estar
Como foram os onze meses de tratamento?
O tratamento afeta tanto a parte física quanto a mental, e isso faz com que algumas pessoas se sintam bravas e deprimidas. Eu fiquei tão enfurecido durante o tratamento que até me endividei, pois toda vez que chegava uma conta ficava com raiva e não pagava. Ouvi a história de um paciente que passou meses no sofá sem se levantar. Isso me assustava, pois sempre fui ativo e o meu lema é “não dá para acertar um alvo em movimento”. Cresci em uma família que acredita que a vida deve ser vivida ao máximo e jurei para mim mesmo que não ficaria esmorecido durante o tratamento. O ioga e a meditação ajudavam, já que vivia cheio de dores no corpo. O suporte que recebi, principalmente dos amigos que fiz nos grupos de reabilitação, foi muito importante.
Você disse que ninguém achava que você deveria escrever um livro. Como a família reagiu quando você decidiu expor o seu envolvimento com drogas e a doença?
Eles me apoiaram bastante, minha irmã, meu tio, tive muito incentivo. Resolvi escrever porque um dia recebi um telefonema de um escritor que queria saber como era ser um homem do clã Kennedy. Ele me enviou uma carta dizendo que um primo meu já havia contado algo supostamente heróico que tinha feito. Respondi que se meu primo achava que tinha feito algo heróico, ele mesmo deveria escrever sobre isso. Bati o telefone e foi aí que tive a inspiração de escrever meu próprio livro. Mesmo que a história não fosse interessante o suficiente e sem saber se alguém iria querer lê-lo, passei a escrever como se minha vida dependesse daquilo.
Como você se envolveu na luta pela conscientização sobre a hepatite C?
Na mesma época em que decidi escrever, recebi um convite para falar sobre vício e recuperação em uma festa beneficente. Eu concordei porque seria uma oportunidade de falar sobre o livro. Quando fizeram a primeira pergunta: “Como é ser viciado em heroína, Chris?”, eu me dei conta de que havia cometido um grande erro e me arrependi de ter começado a escrever o livro. Pensei comigo mesmo que era melhor ir para casa, ficar de bico calado e não constranger minha família. Mas, na entrevista seguinte, em uma rádio, olhei pela janela e vi um sem-teto com um cartaz direcionado a mim pedindo para ajudá-lo a ficar sóbrio. Foi quando me dei conta de que era com ele que eu tinha que falar e não parei mais.
Qual é a sua mensagem às milhões de pessoas que não se submetem ao teste de hepatite C?
Eu digo que preferiria tratar a hepatite a morrer com câncer. Passei por momentos difíceis, mas hoje sou muito feliz. Tive a grande sorte de ter sido encontrado por um médico e sou grato por ele ter me incentivado a fazer o teste e me tratar. Conheço gente que não teve a mesma sorte e está sofrendo com transplantes ou já morreu. Apesar de mais de quatro milhões de pessoas nos Estados Unidos terem sido expostas à hepatite C, quatro ou cinco vezes mais do que à aids, ainda existe muita falta de informação e vergonha, e por causa disso muita gente não sabe que está infectada. Durante os primeiros 30 anos da minha vida, só recebi e nunca dei nada a ninguém – e nos últimos 23 anos, tenho tentado retribuir. Hoje tenho quatro filhos, faço filmes, falo por todo o canto do mundo e há 23 anos não uso nada que altere meu estado mental.
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