Mascote Fit

Animal

Cachorro também é gente?

Adriano Justino
20/08/2006 23:06
A frase do ex-ministro Rogério Magri pode ter sido apenas uma tentativa de esperteza – dita à imprensa quando seu animal de estimação foi flagrado passeando de carro oficial. Mas nos últimos tempos ela tem se tornado cada vez mais verdadeira – pelo menos para os donos dos bichinhos.
A enfermeira Andréia Pissetti, 32 anos, entra no pet shop perguntando: “Tá pronta a minha filha?”. Com 9 meses, a schnauzer Mehl é o centro das atenções na casa, onde moram o marido de Andréia, seus três enteados e duas “secretárias”. Uma delas, inclusive, faz as vezes de babá da cadelinha. “A Mehl é minha primeira filha, a casa fica vazia sem ela”, diz a enfermeira.
A schnauzer dorme na cama do casal de pijama ou camisola – recusa-se a dormir sem –, é levada para passear quatro vezes ao dia – e tem as patas limpas cada vez que sai de casa –, toma banho semanalmente, tem os dentes escovados e recebe gotas de perfume diariamente. Toda semana, Andréia compra algo para Mehl, que tem 12 vestidos, várias coleiras, um colar imitando pérolas… “Já que é para ter um bichinho, vou fazer o melhor para ele”, justifica a moça.
Em tempos de amizades escassas e superficiais, famílias pequenas e sem os laços fortes do passado, os animais acabam virando uma “pessoa” da família. Aquele cachorro que vivia no quintal e não tinha os privilégios de dormir na cama do dono, ser beijado na boca, ter seu lugar à mesa nas refeições, é quase uma raridade hoje em dia. E não que ele fosse maltratado ou tivesse sua dignidade afrontada: ele era tratado como animal, o que é, sem nenhuma intenção pejorativa.
O excesso de cuidados e mimos pode, inclusive, causar problemas ao animal, especialmente aos cachorros. O professor do curso de Zootecnia da PUCPR Paulo Renato Parreira, especialista em comportamento animal, explica que os cães, como os lobos, vivem em matilhas e têm toda a parte social muito bem definida. Em cada grupo, há um macho e uma fêmea dominantes. Quando o animal chega em uma casa, vai ver como se encaixa naquele grupo. “Se ele ganha tudo o que pede na hora, começa a entender que é o líder e a desenvolver comportamentos inadequados, como demarcar a casa, latir em excesso, rosnar quando leva bronca, puxar o dono quando passeia”, enumera.
Muitas vezes os proprietários mudam suas rotinas por causa do filhote, passam a almoçar em casa, voltar mais cedo e não sair no fim de semana e, quando o cão cresce, querem voltar ao hábito antigo. “Converso muito com meus clientes, lembrando que tudo o que eles fizerem quando filhote, o animal vai acostumar. Todo desvio de comportamento é originado pelo dono”, afirma a veterinária Ana Beatriz Soder da Silva, homeopata e proprietária do pet shop Doggies.com.
Esse tipo de atitude pode levar o animal a desenvolver comportamentos que podem até deixá-lo doente. “Ele começa a não suportar a ausência do proprietário, o que pode gerar ansiedade, depressão”, diz Parreira. É aquele animal que arranha portas e destrói a casa quando o dono sai.
Ele explica que os cachorros são mais sucetíveis a desenvolver dependência. Entre os gatos, o excesso de cuidados pode levar à agressividade e dependência, porém é mais raro.
Além disso, o excesso de dependência pode afetar a vida do dono. “Quando a pessoa tem dificuldade de relação com outros seres humanos, é muito fácil transferir para o animal. Aí não é legal, porque é baseado numa dificuldade que a pessoa não consegue superar”, alerta o psicólogo Marcio Araújo Busato.
Entretanto, quem gosta de animais sabe: a convivência com eles tem tudo para ser rica e compensadora. “Quando o relacionamento com o bicho de estimação é saudável, pode trazer uma melhoria de qualidade de vida para o dono”, lembra o psicólogo.
Érika Busani
erikab@gazetadopovo.com.br
Serviço: Ana Beatriz Soder da Silva (veterinária), fone (41) 3024-9382 / Cristiane Zevir (psicoterapeuta), fone (41) 3014-8779 (PSC Psicologia Clínica) / Marcio Araújo Busato (psicólogo), fone (41) 3023-2524 / Paulo Renato Parreira (zootecnista), fones (41) 3299-4300 (PUC) e 3257-4326 (Clinivet) / Wendi Caetano (veterinária), fone (41) 3287-3508 (Cevet).