Moda e Beleza

Quando o cotidiano vira joia

Fabbi Cunha
Fabbi Cunha
02/10/2026 13:02
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Quando objetos do cotidiano viram poesia e joias de design autoral. Crédito: Divulgação.

Como imaginar uma cadeira de plástico transformada em joia?
Foi mais ou menos essa sensação que tive quando conheci o trabalho de Lucas, criador da ELLIE, no Quintal do Lupa, movimento que reúne marcas autorais de Curitiba e do Paraná.
Eu não conhecia a marca. Mas quem trabalha há tantos anos com moda acaba desenvolvendo um radar para aquilo que traz alguma informação nova. E parei.
Ali estavam objetos absolutamente comuns do nosso cotidiano transformados em design. A cadeira de plástico, tão presente na paisagem brasileira que quase deixamos de reparar nela, ganha outra escala e vai parar no corpo. Depois vem um fósforo. Um palito, uma cabeça, duas formas tão simples que, nas mãos certas, viram uma peça cheia de personalidade.
É quase provocador perceber como tão pouco pode dizer tanto.
E talvez seja exatamente aí que esteja a assinatura de Lucas. Ele não precisa inventar uma forma mirabolante para criar algo novo. Seu trabalho começa naquilo que já existe e que, muitas vezes, nossos olhos deixaram de perceber.
A cadeira e o fósforo sempre estiveram ali.
O que não estava ali era a ideia.
Lucas é sul-mato-grossense, radicado no Paraná, estudou joalheria em São Paulo e criou a ELLIE em 2016. Desde então, desenvolveu uma linguagem muito própria, daquelas que você reconhece antes mesmo de procurar a assinatura.
Suas peças já vestiram Anitta, Ivete Sangalo, Sabrina Sato, Gloria Groove, Ludmilla, Grazi Massafera e Patrícia Poeta.
Vivemos um momento em que temos acesso a praticamente tudo. Referências circulam em segundos, tendências atravessam continentes antes mesmo de chegarem às lojas e uma imagem pode ser reproduzida à exaustão.
Por isso, quando encontro um trabalho com identidade, presto atenção.
Não precisa gritar. Não precisa explicar demais. E muito menos parecer com alguma coisa que já vimos para ser desejável.
No próprio Quintal do Lupa, Lucas foi me apresentando outros trabalhos que eu precisava conhecer. E gosto dessa troca que existe entre os criadores independentes: um indica o outro, uma descoberta leva à próxima e, de repente, a gente percebe quanta coisa interessante está sendo criada tão perto de nós.
Talvez essa seja uma das forças da moda autoral hoje. Em um mercado em que referências circulam tão rápido e tudo parece familiar em pouco tempo, encontrar uma assinatura própria virou quase um luxo.
A ELLIE me fez pensar novamente sobre uma palavra que a moda usa muito: sofisticação.
Talvez ela tenha muito menos a ver com excesso do que imaginamos.
Sofisticação não está necessariamente no objeto. Está no olhar.
Porque transformar ouro em joia é uma arte.
Mas olhar para uma cadeira de plástico e enxergar poesia?
Aí já é outra história.