A moda nunca correu tanto. Tendências nascem, viralizam e envelhecem antes mesmo de a gente decidir se gosta delas. Talvez por isso exista algo especialmente interessante acontecendo no movimento contrário: roupas que ainda pedem tempo.
Tempo para pesquisar, escolher um tecido, construir um molde, ajustar uma proporção. Tempo até para olhar.
Foi nisso que pensei ao conhecer Le Jardin, nova coleção da Maison Ivy Tavares, que será apresentada em Curitiba no dia 7 de outubro. Ivy foi buscar nos jardins representados ao longo da história da arte o ponto de partida para uma coleção que acompanha a luz da manhã, atravessa o entardecer e chega à dramaticidade da noite.
É uma imagem bonita. Mas o que mais me interessa aqui não são exatamente as flores.
É o tempo.
Vivemos a era da roupa instantânea. Vemos uma tendência pela manhã, desejamos à tarde e podemos comprá-la antes de dormir. Mal aprendemos a gostar de alguma coisa e já existe outra esperando para ocupar seu lugar.
Nesse cenário, fazer devagar quase vira provocação.
Na Maison, o sob medida começa antes da costura. Cada cliente tem um molde desenvolvido em papel, arquivado e aperfeiçoado ao longo do tempo. Tecidos são escolhidos pelo toque, estrutura, caimento, conforto. Parece óbvio. Mas, numa indústria obcecada por escala e velocidade, deixou de ser.
E há algo de muito contemporâneo nessa aparente volta ao passado.
Exclusividade, afinal, virou uma palavra tão usada pelo luxo que quase perdeu o sentido. Tudo é exclusivo, limitado, único. Talvez o verdadeiro luxo hoje esteja justamente no que não pode ser acelerado nem reproduzido aos milhares.
Não é apenas ter algo que poucos têm. É ter algo pensado para você.
Le Jardin leva essa ideia também para a imagem. A pesquisa de Ivy passa pela pintura renascentista e ganha outra camada nas fotografias de Hudson Rennan, com Daiane Conterato protagonizando a campanha. Luz, tecidos, personagens e paisagem constroem cenas que parecem pinturas contemporâneas.
E isso também diz alguma coisa sobre o momento.
Quando boa parte da moda já nasce pensando em como ficará na tela de um celular, talvez exista certo luxo em criar uma imagem que peça alguns segundos a mais de atenção.
Não se trata de romantizar o passado ou demonizar a velocidade. A tecnologia ampliou o acesso à moda e às referências. Mas velocidade não pode ser confundida com relevância.
Nem tudo que chega primeiro permanece.
Jardins também têm seu próprio tempo. Existe preparação, espera, estação, luz e cuidado. Algumas coisas simplesmente não aceitam ser apressadas.
Roupa boa talvez também seja assim.
Em uma moda obcecada pelo próximo, cultivar alguma coisa com calma começa a parecer bastante moderno.