Histórico

Cobras

*Marisa Valério
19/12/2010 02:03
A não ser pela abundância das roupas, joias, sapatos e bolsas mais desejadas do mundo, o quarteto de amigas de Sex and The City não me faz inveja. Ok, não falei da silhueta delas, mas tenho pra mim que aquilo é ilusão de ótica ou truque de câmera.
Tenho a cumplicidade das magrelas de Nova York multiplicada por três.
E isso começou quando, há uns cinco anos, 12 mulheres que vivem nesta cidade, e que já se conheciam há um par de décadas, deram de se reunir uma vez por mês, ou quase. Estou entre elas.
Os encontros começaram em torno de uma de nós, que girava meio sem rumo num turbilhão de ansiedade. Ou melhor, girava mais rápido que as demais, que se descobriram todas meio doidas, cada uma no seu próprio redemoinho de emoções da meia-idade.
A cada encontro na casa de uma e de outra, comendo pizza da esquina, sopas improvisadas e, nas ocasiões mais solenes, cardápios no capricho, as amigas foram encontrando afinidades, descobrindo as mesmas queixas, chorando as mesmas dores…
Um dia viramos as “Cobras”. Nem lembro como foi, mas remete àquela dose de veneno que todos cultivamos e à velha gíria usada para os “bons da boca”, os “nota dez”. Ai, que entregação! Mas o batismo já rendeu tatuagem de cobra-coral. Ousadia de uma mulher de coragem acima da média e cara-de-pau idem.
Nada é muito organizado. E como organizar uma dúzia de jornalistas – criaturas que por natureza falam muito e muito alto, são curiosas sobre tudo e sobre todos e têm pouquíssimas papas na língua?
O grupo se tornou uma força extraordinária nas nossas vidas e atraiu candidatas a cobra e até cobras honorárias. Sem falar nos maridos jararacos e na ninhada de cobrinhas, que agrega filhos e netos. Ops, poucos netos e bem novinhos, diga-se.
Algumas vezes reunimos a enorme família em que vamos nos tornando, e como isso nos faz bem.
Aos poucos aprendemos a nos ver conforme as possibilidades de cada uma. Desistimos de quórum completo, sob pena de não conseguirmos nos ver. O jeito é marcar hora e lugar, e quem chegar, chegou.
Nem a mudança de uma das cobras para Floripa nos afastou. E os encontros são sempre a catarse de nossos dias tão corridos. São colo e chicote. Quantas verdades nos dissemos sem produzir mágoa, como fomos espelho umas das outras e como isso nos ajudou a encarar erros e comemorar acertos.
Mas o grande balanço que um dia faremos, tenho certeza, é do quanto rimos nesses anos de louca convivência! Rimos de tudo e de todos, até de piada sem graça, das roupas do passado e dos cabelos sem noção, do quanto engordamos e dos empregos malucos, dos calotes que levamos e de namorados que ficaram pelo caminho…Rimos da vida e, sobretudo, de nós mesmas!