Moda e Beleza

Quando o design sobrevive à tendência 

Fabbi Cunha
Fabbi Cunha
04/09/2026 09:00
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Tendência passa, identidade permanece: o luxo do design atemporal. Crédito: Divulgação.

Em uma moda obcecada pelo novo, talvez o verdadeiro luxo seja criar algo que continue fazendo sentido muitos anos depois. 
Tem uma diferença enorme entre criar uma peça bonita e construir uma linguagem própria. 
Conheço o trabalho de Maria Dolores há muitos anos e tenho joias de coleções antigas que continuo usando. O mais interessante é perceber que, quando uma peça nova chega, ela conversa com as anteriores. Não parece pertencer a outro tempo. Elas se encontram. 
Para mim, esse é um dos sinais mais interessantes de um bom design: ele evolui sem precisar negar o que veio antes. 
A história de Maria Dolores ajuda a entender essa coerência. O interesse pela arte começou cedo, passou pelo Desenho Industrial e encontrou nas joias seu lugar definitivo. Aos 23 anos, ela levou 500 peças feitas à mão para um bazar em Curitiba. O trabalho chamou a atenção de uma executiva do setor justamente por aquilo que continua sendo sua maior força: uma assinatura autoral. 
Depois vieram os estudos de ourivesaria em Florença, na Itália, e uma trajetória que levou suas criações para a moda, para exposições e para fora do Brasil. Mas é menos o tamanho dessa trajetória e mais a maneira como ela foi construída que me interessa. 
Cada coleção começa em uma inspiração e desenvolve uma narrativa própria. Arte, natureza, relações humanas, formas, cores e diferentes referências culturais aparecem transformadas em pedras, resinas, metais e volumes. Nada parece estar ali apenas para acompanhar a tendência da vez. 
E talvez por isso suas coleções consigam conversar entre si. 
Em um mercado que lança novidades numa velocidade quase impossível de acompanhar, existe algo muito contemporâneo em criar peças que não precisam envelhecer para dar lugar às próximas. 
É interessante observar como criações de diferentes momentos continuam convivendo sem que uma denuncie a idade da outra. Ao contrário, quando
misturadas, ganham novas leituras. É quase como se cada coleção acrescentasse um capítulo à mesma história. 
Isso também diz muito sobre a maneira como quero consumir moda hoje. 
Não me interessa mais um guarda-roupa, ou um porta-joias, em que cada novidade apague a anterior. Gosto da ideia de construir uma coleção pessoal aos poucos, com peças que carreguem histórias e continuem encontrando seu lugar com o passar dos anos. 
Tendência todo mundo pode acompanhar. Identidade é mais difícil. 
E talvez seja justamente por isso que reconhecemos um bom design antes mesmo de procurar a assinatura.