Histórico

Uma alma feminina na ronda…

Adriano Justino
12/06/2006 00:56
Assaltos, brigas, acidentes, tiros, extorsão, falcatruas, drogas, revolta, polícia, bandido, lágrimas, ah, e eles! Os corpos. São muitos. Eis a matéria-prima das reportagens policiais. O submundo do crime e a realidade do cotidiano das grandes cidades, as pequenas vilas esquecidas, lembradas ou descobertas nas linhas de textos que vão para dentro da casa dos leitores. As razões para acontecimentos trágicos e, inegavelmente, tristes despertarem tanta atenção dos leitores são variadas. Estudos de Comunicação revelam várias causas e há veículos que se valem delas para sensacionalizar o grotesco. O importante, enfim, é que o jornalismo, o diário em especial, não tem como fugir da divulgação de notícias descobertas durante a ronda policial.
Este é um trabalho que pede, no mínimo, um pouco de sangue frio. Dizem os mais experientes que a moldura, para não dizer casca, construída pelo tempo e pelo treino da profissão os tornam prontos para encarar situações de extrema violência com naturalidade. Ouso dizer que tal naturalidade pode demorar um tempo maior do que o esperado para chegar, podendo até não chegar nunca.
Como não se entregar ao sentimento de perplexidade ao se deparar com pessoas enjauladas como bichos, justamente por terem ultrapassado todos os limites do que é ser humano? Como não se estarrecer com tantos crimes bárbaros, que ultrapassam os limites da sanidade? E quando os personagens da história de barbáries são crianças? Como separar a mente da alma e não colocar no texto um pouco daquele sentimento de revolta? Como ir para casa sem necessitar de lágrimas para aliviar? Há dias em que é impossível…
Definitivamente, não é um trabalho fácil. Boas notícias nessa área são sabidamente impossíveis. Salvo, claro, quando a PM ou o Cope anunciam a prisão de uma grande quadrilha, a Homicídios prende o verdadeiro assassino ou o Corpo de Bombeiros salva mais uma vida.
A rotina na ronda policial só é mesmo assumida por um repórter porque ele sabe de seu papel secundário, mas essencial, na busca de solução para tantos crimes e corpos. Nós, repórteres policiais, somos, então, o espelho de uma sociedade assustada, mas que mantém os olhos abertos para se enxergar e se expressar. É essa sociedade que nos cobra o papel de interlocutores da Justiça, do clamor por dias menos violentos, com menos corpos, com mais valor pela vida e pela liberdade.
Ao menos é nisso a que eu me apego para conseguir sair da redação a caminho das várias delegacias, polícias e IML. A busca diária por desgraças se justifica no interesse da sociedade por essas notícias, na necessidade humana de saber exatamente o que acontece nas ruas, cadeias, bares e domicílios mais próximos. Afinal, é só quando se conhece a realidade que se despertam opiniões e possibilidades para transformá-la.
Mauren Lucrecia é repórter de Paraná, se descobre cada dia mais tocada pelas mazelas humanas que observa diariamente na ronda policial, mas reconhece o valor social deste trabalho.
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