Atrasos, cancelamentos e amor em risco: os reflexos da greve nos aeroportos do Paraná
Carolina Werneck
30/05/2018 09:41
Aeroporto de Foz do Iguaçu.
Sexta-feira, 25 de maio, 14h. O paranaense Gustavo Fonseca, 25 anos, recebe um SMS avisando que o voo que pegaria de Curitiba para Brasília, naquela mesma noite, havia sido cancelado. O motivo era o mesmo que pegou de surpresa milhares de passageiros em todo o país na última semana: falta de combustível.
Desde que a paralisação dos caminhoneiros começou, na segunda-feira, 21 de maio, a crise de combustíveis afetou pessoas que seguiriam viagem pelo ar e pela terra. Enquanto, na cidade, as bombas se esvaziavam nos postos e filas enormes se formavam esperando uma oportunidade de encher o tanque, nos aeroportos os caminhões levando o querosene indispensável para as decolagens simplesmente não chegava. De acordo com a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), só em Curitiba foram cancelados 28 voos entre o dia 21 e a última terça-feira (29).
O Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais. Foto: Daniel Castellano / Gazeta do Povo
Amor na ponte aérea
Um dos voos cancelados no Afonso Pena era o de Fonseca. O agente de atendimento não pode, então, cumprir um ritual que já dura quase quatro anos. Uma vez por mês ele pega um voo em Curitiba com destino a Brasília. Tudo para ver a namorada, Jaynne Quintino, 25, que mora na capital federal. “[A lei de] Murphy não falha, né? Eu tinha brincado com a minha namorada que iam cancelar justamente o meu voo e não deu outra”, conta. Assim ele, que deveria decolar às 21h45 da sexta-feira, só conseguiu ir a Brasília no dia seguinte, às 6h40.
“Foi ruim por terem cancelado aquele voo e me deixou na tensão de que poderiam cancelar a minha remarcação do dia seguinte também. Fiquei a madrugada toda olhando o celular para ver se haviam cancelado ou não.” Mas não cancelaram e ele pode encontrar a namorada no sábado de manhã. Foi com saudades e com receio de ter problemas na volta. “Só arrisquei porque já fazia quase dois meses que a gente não se via. E, se não fosse dessa vez, provavelmente só conseguiria daqui a umas duas semanas. Já fui levando umas roupas a mais”, brinca.
Chegando em Brasília, Fonseca percebeu que outras pessoas estavam em situações talvez mais graves que a dele. “Logo que cheguei anunciaram o embarque de um voo que devia estar há muito tempo atrasado. Assim que falaram o numero do portão de embarque, as pessoas que estavam esperando começaram a gritar e bater palmas. Foi um momento bem Brasil.” Ele e Jaynne comemoraram o encontro quase desmarcado com uma postagem no Instagram.
Problemas em todo o Estado e no país
Dos cinco principais aeroportos do Paraná, três são administrados pela Infraero. O Aeroporto Internacional Afonso Pena, que serve a Curitiba e região, o Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu/Cataratas e o Aeroporto Governador José Richa, em Londrina. Os três tiveram atrasos e cancelamentos devido à dificuldade de abastecer as aeronaves.
De acordo com a Infraero, 10 aeroportos do país estão sem combustível: São José dos Campos (SP), Uberlândia (MG), Campina Grande (PB), Juazeiro do Norte (CE), Palmas (TO), Imperatriz (MA) e Londrina (PR). Além desses, Maceió (AL), Montes Claros (MG) e Brigadeiro Protásio, em Belém (PA) —que não é o aeroporto internacional de Belém.
O índice de voos cancelados foi menor nesta quarta-feira (30): dos 708 voos programados, 40 foram cancelados (5,65%), índice menor do que o registrado no mesmo período de terça-feira (29). Os voos atrasados eram 46 (6,5%).
Em Curitiba o total de voos cancelados representa pouco mais de 2% dos 1259 voos programados para o Afonso Pena nesses nove dias (de 21 a 29 de maio). Outras 65 operações sofreram atrasos de mais de 30 minutos, segundo a Infraero.
Em Foz do Iguaçu a situação foi parecida. De acordo com o órgão, dez voos foram cancelados no mesmo período, quase 3% dos 346 voos programados. Já os voos atrasados por mais de meia hora foram 35, pouco mais de 10% do total. Londrina, por sua vez, teve proporcionalmente mais problemas. Dos 234 voos que seriam operados na cidade ao longo dos nove primeiros dias de paralisação, 14 foram cancelados, ou seja, 6%. Em termos de atraso os números são similares. 16 esperaram por mais de meia hora além do horário marcado para a decolagem, quase 7% do total.
Os aeroportos Silvio Name Junior, em Maringá, e Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel não são administrados pela Infraero.
Durante a paralisação houve um voo cancelado em Cascavel, mas a administração do aeroporto informou que essa foi uma decisão da Azul, única companhia que opera na cidade. “Não foi por falta de combustível no aeroporto de Cascavel, mas no aeroporto de origem do voo.”
Aeroporto Afonso Pena, em Curitiba/São José dos Pinhais. Foto: Antônio More/Gazeta do Povo.
Ainda segundo a administração do Coronel Adalberto, o aeroporto utiliza em média 2500 litros de querosene para operar seus três voos diários. Na última terça-feira (29), o estoque ainda tinha 20 mil litros de combustível, o que daria para continuar operando normalmente até a próxima sexta-feira (1º).
Maringá também conseguiu manter as operações dentro do previsto.
“Tivemos uma reunião com as companhias aéreas e os postos de combustível de dentro do aeroporto, que são três. Fizemos um balanço do estoque, calculamos quanto tempo ele duraria e pensamos no que poderia ser feito para economizar. Pedimos às companhias que os voos que viessem de Viracopos [em Campinas] e Guarulhos viessem cheios. As companhias ajudaram muito nesse aspecto”, explica a administração. Na tarde de terça (29) o Silvio Name Junior informou que ainda tinha combustível suficiente para os voos que deveriam ser operados até a quinta-feira (31).
A Urbanização de Curitiba (Urbs), responsável pelas operações da rodoviária da cidade, calcula que 35% dos ônibus que deveriam ter circulado entre os dias 21 e 29 não o fizeram. No entanto, o órgão afirma que os passageiros não deixaram de viajar. Isso porque, quando uma saída era cancelada, as empresas buscavam remanejar os passageiros daquele horário para o horário seguinte.