Era pra ser até que a morte os separasse. Só que os protagonistas das modernas histórias de amor viram o casamento se transformar nos últimos 30 anos, como nunca se viu em toda a História. Embalado pela invenção da pílula anticoncepcional, pela lei do divórcio, pela emancipação feminina e a busca da mulher por espaço no mercado de trabalho, pelo sexo casual mas, sobretudo, pelo novo status adquirido pelas relações afetivas.
Para entender o que aconteceu com essa instituição que ainda é almejada pelo ser humano – sim, as pessoas ainda sonham em compartilhar seu sonho de felicidade ao lado de alguém –, a doutora em História da Universidade Federal do Paraná, Ana Paula Vosne Martins, se debruça sobre o panorama que começou a se configurar no final dos anos 60 e repercutiu em uma série de revoluções na família, nas relações de gênero e na história da mulher. “O papel da mulher mudou mais que o do homem. Eles vieram atropelados atrás.”
A primeira mudança se dá na família, que no século 20 começou a assistir à democratização de suas relações: sai de cena a estrutura essencialmente rural, patriarcal, em que a herança ou o casamento bem feito eram as únicas chances de ascensão social para as mulheres, e entra a estrutura urbana, com maior acesso aos bens culturais e à educação. “A partir dos anos 60, o casa mento deixa de ser profissão para a mulher. Elas deixam de ver o compromisso como ponto final e sonham em ter vida própria.” Os anos 70, que ficaram conhecidos como a década da mulher, trouxeram, segundo Ana Paula, a realidade do divórcio – “que libertou homens e mulheres para resolver problemas que eram mantidos por uma lei tacanha” –, das pílulas anticoncepcionais – e o direito de escolher o momento de ser mãe – e um clima mundial favorável para toda a mudança. Nos anos 80, veio a era da “amizade colorida” escancarada na televisão, que contribuiu à sua maneira para a “educação” sentimental: “A televisão ensinava até a beijar, bem melhor do que o cinema hollywoodiano. As novelas tratavam de mostrar novas alternativas de relacionamento, um novo homem que admitia errar”, conta ela.
Para a historiadora, nada disso, no entanto, minou o casamento. “O ritual é importante e valorizado, a diferença é que não se vive mais numa camisa-de-força. A instituição de hoje é mais flexível, mais aberta e a duração certamente não é mais a questão fundamental.”
Recentemente, a escritora Stephanie Coontz, professora de Estudos sobre a Família na Faculdade Estadual Evergreen, em Olympia (EUA), comprovou a revolução do casamento no livro Marriage, a History: From Obedience to Intimacy or How Love Conquered Marriage (Uma História do Casamento: Da Obediência à Intimidade). Segundo ela, a transformação do casamento se deu em grande parte ao fato de as mulheres terem mudado tão dramaticamente. “No decorrer da minha vida, o casamento, que era uma instituição rígida na qual o papel dos gêneros era estritamente definido, se transformou naquilo que atualmente vemos com freqüência – as parcerias. Até meados do século 20, sustentar a família era papel do homem. O papel da mulher era fornecer sexo e cuidar da casa. Isso acabou”, disse em entrevista ao jornal americano The New York Times.
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