Comportamento

Opinião: Semana de Moda de NY acaba com padrão de beleza

Bruna Covacci
13/09/2016 13:04
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À esquerda, Whoopi Goldberg e à direita Winnie Harlow, com vitiligo. Fotos: Reprodução/Instagram.

Escolher os modelos que vão apresentar suas coleções não é uma tarefa fácil para os estilistas. Dá para entender. No documentário “Jeremy Scott: The People’s”, disponível na Netflix, o designer da Moschino, Jeremy Schott, mostra um dia de casting no seu ateliê: mais de 130 meninas passaram por ele e nem oito agradaram. Eles procuram muito mais do que uma menina bonita e magra. A modelo é a responsável por carregar numa passarela o seu trabalho de meses, suas ideias e convicções.
A modelo Madeline Stuart, com síndrome de Down. Foto: Reprodução/Instagram.
A modelo Madeline Stuart, com síndrome de Down. Foto: Reprodução/Instagram.
Tudo isso faz da Semana de Moda de Nova York ainda mais revolucionária. As roupas ficam um pouco de lado quando percebemos que modelos sem a ‘aparência convencional’ são a última moda das passarelas. Madeline Stuart, com síndrome de Down (ela desfila para a FTL Moda pela terceira vez, aos 19 anos); Winnie Harlow, com vitiligo (já participou de outros desfiles e chegou a concorrer no programa programa “America’s Next Top Model”); Rebekah Marine, com um braço biônico; e Reshma Qureshi, com o rosto desfigurado por ácido, se tornaram as modelos protagonistas dos primeiros desfiles e não atendem aos padrões de beleza das passarelas.
Reshma Qureshi, a modelo indiana que teve o rosto desfigurado por ácido. Foto: Reprodução/Instagram.
Reshma Qureshi, a modelo indiana que teve o rosto desfigurado por ácido. Foto: Reprodução/Instagram.
E se as modelos carregam mensagens e ideias dos estilistas a mudança é, sim, muito significativa. Pela primeira vez o mundo da moda se mostra para todos os tipos de mulher e deixa de ser desagregador, permitindo que todos se sintam bem e sejam representados. Na apresentação de Kanye West, o casting das modelos que aconteceu apenas três dias antes do desfile teve um tuite polêmico. Ele pedia que apenas mulheres ‘multirraciais’ participassem da seleção. A fila deu a volta no quarteirão. A atriz Whoopi Goldberg, negra, plus size e mais velha, foi a cereja do bolo do desfile da Opening Ceremony.
Modelos de Kanye West eram 'multiraciais'. Foto: Reprodução/Instagram.
Modelos de Kanye West eram 'multiraciais'. Foto: Reprodução/Instagram.
A Chromat da estilista Becca McCharen levou modelos magras, outras nem tão magras assim, modelos trans… para apresentar suas criações.
Desfile Chromat. Foto: Divulgação.
Desfile Chromat. Foto: Divulgação.
Abrindo o caminho para romper preconceitos, uma dezena de estilistas da comunidade LGBT (lésbicas, gays, transexuais e bissexuais) também apresentou suas propostas na Big Apple. Eles mostraram seus trabalhos sob a filosofia da “inconformidade de gênero”. Entre os estilistas esteve Angie Chuang, nascida em Nova Jersey e estabelecida no Brooklyn, que apresentou designs urbanos, monocromáticos e andróginos. Outro que se destacou foi Aston Bjorkman, para a Sir New York, de roupa unissex. A bandeira que eles levantam já está nas ruas. Uma das marcas brasileiras que passou a atender bem as necessidades unissex foi a Melissa, conhecida por muito tempo por fazer sapatos só para mulheres. Além dos estilistas, 60 modelos representaram a comunidade LGBT sobre a passarela, entre eles Casey Legler, o primeiro transexual a desfilar na coleção de mulheres da Tom Ford.
Futuro promissor 
Ronaldo Fraga (verão 2016). Foto: Bruna Covacci.
Ronaldo Fraga (verão 2016). Foto: Bruna Covacci.
O recado foi dado. É hora dos estilistas brasileiros e de todo mundo refletir sobre o que a Semana de Moda de Nova York apresentou de forma sutil e ao mesmo tempo revolucionária. Em “Fúria das Sereias”, desfile de verão 2016 na São Paulo Fashion Week,  o estilista mineiro Ronaldo Fraga levou mulheres reais para a passarela, representando sereias (entre elas estava até a poeta paranaense Alice Ruiz). A comoção foi geral. No entanto, as personagens foram figuração para modelos com os padrões de beleza tradicionais desfilarem.
Se até a Barbie já mudou os seus padrões, no começo do ano, oferecendo modelos que as crianças possam se identificar, já passou da hora do mundo da moda fazer o mesmo. Se a roupa que você usa é aquilo que te representa, que mostra a sua personalidade, é contraditório assistir aos desfiles e não conseguir se enxergar em nada que é apresentado. 
* Bruna Covacci é repórter do Viver Bem, da Gazeta do Povo