Moda e beleza

Entenda por que a São Paulo Fashion Week foi tão revolucionária

Bruna Covacci
28/10/2016 14:30
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São Paulo Fashion Week é para todos. Fotos: Agência Fotosite.

A São Paulo Fashion Week N42 encerra nessa sexta-feira (28) deixando um legado importante para o calendário da moda no Brasil. A exemplo da última edição, a semana não foi pautada por uma estação e trouxe propostas para provocar e refletir o novo momento de consumo e da moda no mundo. Confira os destaques do evento:
Em alguns desfiles dessa edição da São Paulo Fashion Week, a roupa ficou em segundo plano. Estilistas optaram por fazer apresentações que abordassem questões importantes para a sociedade. O tema do evento era provocativo: trans, mostrando que a realidade que conhecemos hoje está em transformação. Segundo Paulo Borges, fundador e diretor da SPFW, a ideia é mostrar que o futuro é agora e ele não existirá se não trabalharmos hoje. É uma questão de ação e reação. “Uma semana de moda não deve se prestar apenas a lançar coleções”, disse.
LAB faz estreia revolucionária na SPFW. Fotos: Agência Fotosite.
LAB faz estreia revolucionária na SPFW. Fotos: Agência Fotosite.
Na segunda-feira, a marca estreante LAB, do artista Emicida e do seu irmão Evandro Fióti, trouxe um casting diverso, conectado com a diversidade dos consumidores. Foi a primeira vez que plus size tiveram espaço na SPFW, que está na sua 42ª edição. Entre os modelos, a predominância era negra. As roupas eram todas unissex. Quem participou da apresentação desfilando de saia foi o cantor Seu Jorge. Frequentemente o evento apresenta coleções politizadas, com mensagens críticas. Mas, desta vez, os estilistas se somaram à subversão na passarela, mostrando que a moda deve ser feita para todos.
Estilista mineiro chamou atenção para a transfobia. Fotos: Agência Fotosite.
Estilista mineiro chamou atenção para a transfobia. Fotos: Agência Fotosite.
Na quarta-feira, Ronaldo Fraga escalou um time de 28 transexuais e travestis para cruzar a passarela improvisada no Theatro São Pedro e abordou uma triste realidade brasileira, a transfobia. “Estamos no país onde mais ocorrem assassinatos de transexuais e travestis no mundo. E é papel da moda encampar as discussões da hora, reinventar histórias. A discussão do momento é sobre a questão de gênero”, disse o estilista. Ao invés de falar mais sobre inspiração e detalhes da coleção, o mineiro enfatizou: “A história do desfile não está na roupa, mas sim em quem veste”.
Moletons-slogans foram a grande sacada das estilistas. Fotos: Agência Fotosite.
Moletons-slogans foram a grande sacada das estilistas. Fotos: Agência Fotosite.
Juliana Jabour e Karen Fuke, ex-colegas de trabalho da Triton, uniram forças pra fazer a Just Kids, nome que brinca com as iniciais das duas e, ao mesmo tempo, cita o livro homônimo da cantora americana Patti Smith. A coleção apresentada na quinta-feira trazia diversas mensagens em seus moletons-slogans, como “we’re not here to sell clothes“ – não estamos aqui para vender roupas em tradução livre; e “fashion kills” que pode ser entendido como moda mata. A passarela foi um show de democracia: sem fila A ou lugar marcado, todos estavam de pé num corredor na Cartel 011, loja multimarcas de Pinheiros. Com clima underground, nada de modelos padronizados, o desfile deu vez a modelos com beleza real.
A modelo nos desfiles de Patrícia Vieira (à esq) e Fernanda Yamamoto (à direita). Fotos: Agência Fotosite.
A modelo nos desfiles de Patrícia Vieira (à esq) e Fernanda Yamamoto (à direita). Fotos: Agência Fotosite.
Entre as modelos o grande destaque foi Valentina Sampaio, 20 anos. Em menos de 24 horas de São Paulo Fashion Week, logo após o desfile da grife À La Garçonne, de Alexandre Herchovitch, só se falava nela. A modelo transgênero também é embaixadora da L’Oréal Paris e fez agora sua estreia em semana de moda. “Comecei minha carreira em Fortaleza, fazendo faculdade de moda. Lá conheci pessoas na feira de moda e comecei a trabalhar como modelo”, relembrou. Perguntada se já começou a modelar “como menina”, Valentina foi categórica: “Isso não existe, eu sempre fui menina”.
Raissa e Cirnansck fechando as apresentações da quinta--feira. Foto: Agência Fotosite.
Raissa e Cirnansck fechando as apresentações da quinta--feira. Foto: Agência Fotosite.
A vitória de Raissa Santana no Miss Brasil Be Emotion 2016 entrou para a história do concurso: ela é a segunda mulher negra a ser coroada – a primeira foi a gaúcha Deise Nunes, em 1986. Na época, Raissa afirmou que quebrar esse jejum de 30 anos pode mostrar para outras mulheres que elas podem conquistar o que quiserem. Na quinta-feira, a top foi convidada pelo estilista Samuel Cirnansck para desfilar na SPFW.
Movimento global
Em 2013, o estilista Rick Owens fez uma apresentação histórica na semana de moda de Paris. Ele levou à passarela apenas modelos plus size. Aos poucos, a representatividade toma conta da moda. Na Semana de Moda de Nova York, que aconteceu em setembro, foi possível perceber que modelos sem a ‘aparência convencional’ são a última moda das passarelas. Madeline Stuart, com síndrome de Down (ela desfila para a FTL Moda pela terceira vez, aos 19 anos); Winnie Harlow, com vitiligo (já participou de outros desfiles e chegou a concorrer no programa programa “America’s Next Top Model”); Rebekah Marine, com um braço biônico; e Reshma Qureshi, com o rosto desfigurado por ácido, se tornaram as modelos protagonistas.