O avanço médico na área de cirurgias de alto desempenho no Brasil é patente. Porém, este progresso não é acompanhado na mesma velocidade pela área de tratamento de feridas, que em muitos casos ainda se limita à troca diária de curativos simples (gaze seca e esparadrapo), uso de antibactericidas e antibióticos. Há ainda hoje lugares onde o açúcar é utilizado.
Porém, uma tecnologia desenvolvida ao longo da metade do século passado e estudada a partir das décadas de 80 e 90, a terapia por pressão subatmosférica (ou a vácuo), tem se tornado uma opção no tratamento de feridas complexas crônicas – aquelas que demoram mais de quatro semanas para cicatrizar. “O tratamento inadequado de algumas feridas pode fazer com que a pessoa conviva por anos e até décadas com elas, deixando uma janela aberta para a ocorrência de descompensações, infecções e amputação de membros”, diz Adriano Mehl, médico responsável pelo Ambulatório de Feridas e Pé Diabético do Hospital Pilar. Ele diz que quadros de diabete, desnutrição, hipertensão e tabagismo crônico dificultam o processo de cicatrização, que aliado a um método inadequado de tratamento para determinada ferida prolonga a recuperação, fatalmente onerando tanto o paciente quanto o sistema de saúde.
Como funciona
Os mecanismos de ação deste tratamento que succiona a ferida coberta por uma esponja são: redução do edema local, contração da ferida, estímulo à neoangiogênese (formação de novos vasos sanguíneos), remoção do exsudato (fluidos), melhora do fluxo sanguíneo e redução da colonização bacteriana. Os resultados têm sido alcançados principalmente em feridas de pacientes politraumatizados, em particular feridas complexas de membros inferiores.
No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o procedimento é realizado com frequência desde 2003. O médico e professor da faculdade Marcus Castro Ferreira participou de pesquisas sobre o uso da terapia em pacientes com feridas traumáticas agudas. Segundo ele, o uso da terapia não é um tratamento definitivo, mas uma terapia intermediária até a cobertura cutânea definitiva, através da realização de enxertos e retalhos para a resolução da ferida. “O método não deve ser usado isoladamente, deve ser aplicado após tecidos necróticos ou inviáveis terem sido retirados através de desbridamento (técnica mecânica ou química de retirada de partículas) cirúrgico”, diz ele.
Menos curativos
Ferreira reconhece que a técnica tem um grande benefício prático e de conforto para o paciente, pois a esponja pode ser trocada semanalmente. “Reduz-se o número de curativos e o desconforto para o paciente e também o trabalho da enfermagem que faz a troca de curativos tradicionais”, afirma ele.
Feridas com todo tipo de causa podem ser beneficiadas com a terapia, de acordo com Ferreira, mas só há bom custo-benefício nesta escolha quando para a utilização em feridas complexas, mais profundas, extensas e que pioraram ou que em um mês não cicatrizaram com curativos habituais. “Para as feridas pequenas superficiais, não é indicada”, diz.
Segundo ele, embora não haja ainda estudos comparativos de custo da terapia no país, o bom senso indica que se consegue fechar mais rápido a ferida (associada a cirurgia plástica), diminuindo gastos de dia-leito para internação e antibióticos. “Porém, o mais importante é que a técnica oferece um tratamento mais confortável para os pacientes”, diz ele, assinalando que a terapia tem sido autorizada pelos convênios em São Paulo – apesar de alguns com restrição – e o Sistema Único de Saúde ainda discute o tema, especialmente relacionado a traumas, para o qual há uma consulta pública no Ministério de Saúde.
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