Saúde e Bem-Estar

Feminilidade em (muitas) pílulas

Textos: Mariana Scoz, Fotos: Leticia Akemi e Produção: Joana dos Anjos
21/03/2013 03:19
A relação das mulheres com as pílulas – não apenas as anticoncepcionais – começa desde muito cedo, assim como a automedicação sem indicação médica. Com o início da puberdade, quando surgem as dores relacionadas à cólica e à tensão pré-menstrual, seguem-se as indicações informais de remédios contra as cólicas e anticoncepcionais.
Esse boca-a-boca preocupa os médicos, especialmente quando os remédios agem sobre os hormônios. Um exemplo foram os recentes casos de trombose em pacientes que tomavam o anticoncepcional Diane 35. Foram registrados 125 casos e quatro mortes na França, o que levou à proibição desta pílula. Porém, muitas mulheres com casos de trombose na família seguem tomando remédios com estrogênio sintético por conta própria, sem consultar um especialista.
Mas as pílulas não param por aí. A partir da juventude, os remédios emagrecedores se somam aos anticoncepcionais e acabam sendo companhia frequente entre aquelas que buscam atalhos para atingir o peso que consideram ideal, deixando de lado os cuidados com a saúde.
O uso contínuo desses emagrecedores, segundo estudo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de 2012, não é indicado, mas é feito por 79% dos usuários desses remédios. Os especialistas apontam que até o uso de diuréticos deve ser monitorado por profissionais.
Depois, já mais maduras, entram na vida das mulheres os antidepressivos, especialmente para combater a insônia, o que faz delas as maiores usuárias desses medicamentos no país. Por vezes médicos especialistas não psiquiatras diagnosticam essas pacientes com problemas de saúde mental e receitam remédios, em muitas ocasiões sem um acompanhamento integral.
Preocupação com a saúde
Para os especialistas em saúde feminina, além das alterações causadas pelas variações do ciclo hormonal, a alta medicalização das mulheres também ocorre por elas serem mais preocupadas com a saúde e buscarem ajuda com frequência. “Elas costumam relatar todas as queixas e ser mais detalhistas ao comunicar os sintomas do que os homens”, explica o diretor do programa de Saúde Mental da Mulher da Universidade de São Paulo, Joel Rennó Junior.
Saber mais sobre o ciclo hormonal e os problemas que afetam a vida das mulheres pode ajudar a evitar a automedicação e a diminuir a possibilidade de que essas situações se tornem crônicas ou causem o inverso do que se busca. Em 2010, mais de 14 mil mulheres so­­freram intoxicações por remédios, segundo o relatório do Sistema Nacio­nal de Informações Toxico Farma­cológicas da Fundação Oswaldo Cruz. Na Região Sul, foram quase 4 mil casos.
No princípio, as cólicas menstruais
As cólicas menstruais são o primeiro percalço na saúde das meninas. Segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Medicina em 2011, 33 milhões de brasileiras sofrem com as dores menstruais. Medicamentos especialmente desenvolvidos para esse sintoma, como analgésicos e anties­pasmódicos, podem ser vistos em propagandas de tevê e internet, e são vendidos livremente sem necessidade de prescrição médica.
Entretanto, os médicos alertam que o especialista ginecologista deve ser consultado antes, indicando a medicação que pode ter um efeito otimizado. Durante a consulta é quantificada a dor da mulher e avaliada a possibilidade de incapacitação da paciente para alguma tarefa. Se as dores não fo­rem muito fortes, uma medicação menos agressiva para o trato digestivo pode ser escolhida. Medicações muito potentes, como alguns anti-inflamatórios, podem causar sangramento e hemorragia no intestino, por isso devem ser evitados se não houver necessidade.
Já a tensão pré-menstrual (TPM), evento relacionado aos hormônios, pode ter um aliado: o anticoncepcional. Como a medicação possui os mesmos hormônios, ela pode controlar as disfunções apresentadas nesses períodos. Entretanto, as dores de cabeça podem não ser um sintoma do período pré-menstrual, mas sim do próprio período menstrual.
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Gestação pede suplementação
Ácido fólico e polivitamínicos fazem parte do dia-a-dia daquelas que pretendem engravidar ou são gestantes. Mas a automedicação deve ser evitada, já que alguns remédios podem trazer riscos em fases diferentes da gestação.
Não se automedique
Nenhum medicamento deve ser usado nesta fase sem indicação médica. Mesmo cremes e pomadas devem ser evitados, pois alguns fármacos, como o ácido acetilsalicílico (encontrado na Aspirina), podem acarretar efeitos na saúde do futuro bebê.
Enjoo controlado
O cloridrato de metoclopramida (como o da fórmula do Plasil) é um antiemético e estimulante gastrointestinal que funciona bem para o enjoo da gestação, quando indicado pelo médico. Outra forma de evitar esse desconforto é ingerir pequenas quantidades de alimentos mais secos, como torradas e bolachas salgadas.
Alívio nas cólicas
Remédios antiespasmódicos que tenham na composição o butilbrometo de escopolamina (como é o caso do Buscopan) ajudam a aliviar as cólicas das grávidas, porém o ideal é consultar o médico, pois medicamentos mais fortes podem trazer riscos para o feto.
Contra as inflamações
Medicamentos anti-inflamatórios que contêm diclofenaco potássico podem ser usados no começo da gravidez, mas ao fim da gestação podem causar alterações no canal do coração do bebê, resultando em problemas circulatórios e insuficiência cardíaca.
Fonte: Gleden Prates, responsável pelo serviço de gestação de alto risco do Hospital e Maternidade Santa Brígida.
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A escolha do anticoncepcional
A decisão pelo melhor método anticoncepcional deve ser tomada em conjunto com um ginecologista. Além de impedir a concepção, as pílulas tratam a irregularidade do ciclo, cólica, acne e alterações hormonais importantes. Indicações de amigas e parentes não devem ser levadas em conta, já que cada paciente reage de uma maneira diferente e é provável que haja sintomas diferentes que precisem ser tratados.
Uma pílula para cada mulher
O perfil do ciclo menstrual das mulheres pode indicar tipos diferentes do medicamento. Para mulheres com alto fluxo, as pílulas com dose baixa de estrogênio não são indicadas. Se a pílula tiver mais compostos progestagênicos ela pode causar maior retenção de líquido. Já as que têm os hormônios androgênicos podem agir como um leve diurético, liberando sódio e água. Por isso, a avaliação de um médico é essencial para definir o perfil hormonal da mulher.
Novas medicações em vista
Cada vez mais as doses hormonais têm diminuído nas pílulas. Os novos progestágenos permitem que a mulher se adapte melhor e pedem menos quantidade. As novas medicações também usam o estrogênio natural, que não tem o mesmo potencial trombogênico do sintético. No Brasil, apenas umas das pílulas comercializadas possui a versão natural, mas outras duas foram lançadas em congressos mundiais e devem chegar logo ao país.
Contraindicadas para quem?
A história familiar de algumas doenças é importante para definir se o contraceptivo oral é o mais indicado. O principal fator é a trombose, que pode acontecer em casos graves no cérebro e pulmão. Pacientes com lúpus também não devem utilizar o anticoncepcional. Também influenciam o tabagismo, a obesidade, a hipertensão e a irregularidade menstrual.
Bomba hormonal
O uso da pílula do dia seguinte também deve ser limitado. Isso acontece porque ela tem um alto nível de hormônio, afinal não passa de um contraceptivo de emergência. Combinada com o anticoncepcional oral pode trazer problemas imediatos, como sangramentos e dores.
Fonte: Cláudio Bonduki, professor do departamento de ginecologia da Unifesp, Jorge Abi Saab Neto, vice-presidente da Região Sul da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), e Vivian Ferreira do Amaral, professora de ginecologia da PUCPR e da UFPR.
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Ansiosas, deprimidas e insones
Cuidadosas quando se trata da saúde mental, alguns distúrbios são mais comuns a elas do que aos homens, como a depressão. Por este motivo, elas também se medicam mais: uma pesquisa de 2011, feita por uma empresa de saúde norte-americana, mostrou que uma em cada quatro mulheres utiliza medicamentos para a saúde mental e que os antidepressivos são muito utilizados entre as mulheres.
Outro estudo, realizado entre universitários brasileiros pela Secretaria Nacional Antidrogas em parceria com a Universidade de São Paulo em 2010, mostrou que as estudantes na faixa de 20 a 30 anos buscam mais comprimidos do que drogas – das 9 mil entrevistadas, 3,2% eram viciadas em calmantes e antidepressivos, uma porcentagem muito superior a dos homens.
Além de nem sempre a medicação solucionar os distúrbios dessa ordem, os especialistas em saúde mental se preocupam com o diagnóstico feito por alguém fora da área de Psicologia e Psiquiatria, e que pode indicar medicamentos sem necessidade.
Depressão
A depressão é duas vezes mais frequente no sexo feminino do que no masculino, explica o psiquiatra Joel Rennó Junior. E a vulnerabilidade das mulheres ao estresse serve como um gatilho para a depressão, especialmente em períodos pré-menstruais e pós-parto, deixando-as mais predispostas a qua­dros psiquiátricos. O uso de remédios desde cedo para tratar esses problemas reais pode cronificar a situação. Os efeitos são sentidos especialmente na pós-menopausa. Nessa época, há uma avaliação emocional da vida da mulher e os problemas relacionados às mudanças no corpo costumam causar uma sensação de culpa nelas.
Ansiedade
A psicóloga Leiliane Tamashiro considera que a ansiedade tornou-se um problema mais preocupante que a depressão e que envolve diversas questões patológicas, que podem levar a síndrome do pânico ou transtorno obsessivo compulsivo. Compulsões também têm acontecido com mais frequência, mais especialmente relacionadas a compras e colecionismo, quando a paciente tende a guardar e organizar objetos. Outra situação atual que tem preocupado especialistas é a automutilação, quando a mulher se machuca, mas sem a intenção de suicídio.
Insônia
A prevalência da dificuldade de dormir é de três vezes mais para as mulheres em relação aos homens. O problema pode ser primário ou ser um sintoma de outra doença. Um neurologista pode definir, por meio de uma polissonografia a qualidade da causa, mas muitas vezes a insônia é um sintoma de depressão, transtorno de ansiedade ou está relacionada ao estresse.
Fonte: Joel Rennó Junior, diretor do programa de Saúde Mental da Mulher (ProMulher) da Faculda­de de Medicina da USP e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, e Leiliane Tamashiro, psicóloga e neuropsicóloga, coordenadora de psicologia do laboratório ProMulher da USP.
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Os efeitos da ditadura do emagrecimento
A ditadura do emagrecimento faz com que as mulheres busquem formas rápidas e fáceis de chegarem ao peso que consideram ideal. Além de dietas restritivas, o uso de diuréticos, laxantes e remédios para emagrecer ainda é comum entre jovens. Entretanto, descobrir qual é seu real peso ideal é a chave para começar a emagrecer com saúde. Para isso, o ideal é consultar um endocrinologista ou nutrólogo, médicos especializados na área.
Diuréticos e laxantes
São pouco indicados como forma de emagrecimento, por retirarem de modo abrupto substâncias importantes para o organismo. No caso do diurético, além de água, outros eletrólitos, como sódio e potássio são expelidos. Como age diretamente nos rins para expelir a água, o produto pode causar problemas renais. Além disso, ele não diminui a gordura e assim que a água for reposta, o peso volta. Já os laxantes podem causar danos à mucosa intestinal e eliminar algumas vitaminas e sais minerais importantes para o organismo.
Remédios para emagrecer
O acesso a esses medicamentos tem ficado mais difícil, por restrições de venda já que o uso pode acarretar diversos problemas. A famosa sibutramina saiu de linha em alguns países por aumentar o risco cardiovascular levando até mesmo à morte, especialmente em pessoas com algumas pré-cardiopatias. Os medicamentos são detoxicados pelo fígado e rins, podendo causar danos hepáticos e renais.
Dismorfia
É quando a pessoa se julga obesa, mesmo estando em um peso adequado. O uso de fórmulas para emagrecer acelera um agravamento do processo de desnutrição, levando até à morte. O acompanhamento de um médico é importante para descobrir o porcentual de gordura e se há problemas como compulsão, ansiedade, erro alimentar, sedentarismo, entre outros.
Fonte: Mauro Scharf, endocrinologista e diretor clínico do laboratório Frischmann Aisengart.
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Qual o tipo da sua dor de cabeça?
Quantas vezes você já ouviu uma amiga pedir um analgésico para dor de cabeça? Isso acontece com mais frequência entre elas porque diversas variedades das dores de cabeça acometem mais as mulheres. Um estudo da Academia Brasileira de Neurologia mostra que 76% das brasileiras sofrem com essas dores. Os hormônios também são responsáveis por alguns dos tipos de cefaleia. O uso repetido de medicamentos sem acompanhamento pode piorar a dor, transformando-a em um problema crônico, já que será necessário cada vez mais remédio para combater a dor. A busca por neurologistas e ginecologistas é a forma mais correta de agir quando a enxaqueca é contínua.
Cefaleia do tipo tensional
É a mais comum e aparece mais em mulheres. Tem duração variada, de algumas horas. Está relacionada ao estresse, sendo esporádica. Ela não é forte o suficiente para levar uma pessoa ao médico e reaparece só em situações estressantes.
Enxaqueca migrânea
Tem uma piora acentuada durante o período menstrual, levando muitas mulheres ao médico. Essa dor não é parte da tensão pré-menstrual como muitas mulheres pensam e piora com as alterações hormonais. Tem caráter genético e 50% das mulheres que sofrem com ela podem identificar uma história familiar positiva em parentes de 1º grau. É prevalente em 12% da população.
Enxaqueca crônica
Aparece especialmente em pessoas que apelam muito para os analgésicos. A automedicação acaba cronificando um problema temporário. Essa enxaqueca pode durar de 4 horas até 4 dias, em apenas um lado da cabeça, que pode mudar de uma crise para outra. Em 60% das pessoas, essa dor é latejante e nos outros 40% ocorre em pontadas e pressões.
Hemicrania contínua
Também aparece mais em mulheres e acontece diariamente e sem intervalos, sendo considerada um dos piores tipos de cefaleia. Ela acontece em apenas um lado da cabeça.
Hemicrania paroxística
A dor aparece em volta dos olhos. As crises acontecem rapidamente, podendo se manifestar vinte vezes em um só dia. Dura entre 2 e 30 minutos.
Dor de cabeça e os hormônios
A enxaqueca piora apenas com a variação hormonal natural. Algumas pílulas anticoncepcio­nais e terapias de reposição hormonal podem piorar a situação. Na gravidez e na menopausa, espera-se uma melhora dos sintomas, mas há exceções. Com a menopausa comum, 2/3 delas melhoram, mas a outra parte começa a sofrer com as dores ou elas pioram. Já a menopausa cirúrgica tende a piorar a enxaqueca.
Fonte: Carla Jevoux, membro da Academia Brasileira de Neurologia e Sociedade Brasileira de Cefaleia, doutora em neurologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
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Sintomas da menopausa sob controle
A reposição hormonal não é a primeira opção para todas as mulheres que chegam à menopausa. O primeiro passo são exames e avaliação de sintomas. Caso a mulher não tenha problemas, o uso de hormônios não é necessário somente por ela participar de certa faixa etária.
Melhoras
O uso do medicamento está ligado a algumas melhoras na qualidade de vida. A mulher pode ter uma vida sexual regular e uma estabilidade no humor. Além disso, ele diminui o risco de câncer de intestino e de fratura na bacia por causa da osteoporose.
Controvérsia
Para os ginecologistas, o uso da reposição pode ser indeterminado. Entretanto, a coordenadora de psicologia do ProMulher da USP, Leiliane Tamashiro, avalia que muitas mulheres na pós-menopausa atendidas pelo programa revelaram-se viciadas em hormônios e tiveram diversos órgãos – como rins e fígado –, comprometidos pelo uso excessivo.
Alto risco
Como a reposição hormonal está ligada ao câncer de mama, mulheres com história familiar dessa doença, ou que tenham problemas hepáticos, distúrbios de coagulação e trombofilia não devem utilizar essa medicação, mesmo que apresentem sintomas.
Tipos de hormônio
Assim como no caso dos anticoncepcionais, o uso da terapia hormonal é avaliado para cada paciente, definindo qual tipo de medicação é mais adequado ao perfil da mulher. Mas, diferentemente da pílula, a maioria dessas reposições é feita com hormônios naturais, causando menos efeitos adversos.
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