Saúde e Bem-Estar

Fim de ano com efeitos colaterais

Amanda Milléo
19/12/2013 03:00
Saber que o ano está quase no fim traz sensações adversas a muita gente, da angústia à melancolia. A lembrança de que a lista de coisas a fazer em 2013 segue intacta, que as reuniões familiares podem causar algum desconforto são apenas alguns dos fatores estressores desta época.
Somam-se a isso a ansiedade da caçada aos presentes, o aumento exponencial de compromissos e do volume de trabalho – que permite o recesso – e o planejamento das férias e pronto: diferentemente do que mostram as propagandas, este período não parece assim tão maravilhoso, como embalado em fitas vermelhas e douradas. Saber disso é um primeiro grande passo.
O bombardeio dos cenários de felicidade plena traz um modelo que não se enquadra a todos. A imagem impõe um sentimento de ‘fracasso’ em quem não atinge aquela perfeição, contribuindo com a conhecida depressão de fim de ano. “Saber que a felicidade não é obrigatória e nem todos estão naquele estado faz com que a pessoa perceba o que é fantasia e o que é realidade nisso tudo”, explica o psicanalista e psicoterapeuta Roberto Kirschbaum, que resenhou a obra Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, lançado pela Editora UFPR.
“O fim do ano é uma determinação aleatória que supõe o o fim de um ciclo. Mas, o dia 26 de dezembro vai ser igual ao dia 25, o dia 2 de janeiro será igual ao dia 1º, são dias iguais”, afirma Maria Virginia Cremasco, professora de Psico­­patologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Faça do seu jeito
Para quem teme encarar uma ­­situação estressante, o ideal é reinventar a confraternização de acordo com seus desejos, buscando o que te faz feliz, para além das convenções, como assinala a professora. “Se a pessoa está sozinha, ela pode reunir amigos e fazer um jantar em casa. Se o desejo é comemorar com as pessoas do condomínio, por que não fazer? Se a família está em luto, reservar-se e não ver ninguém pode ser a saída”, diz ela.
O ideal é administrar os pontos que geram estresse, abrindo espaço para a tranquilidade, segundo a professora e pesquisadora sobre estresse, tomada de decisões e representação social da Universidade Cruzeiro do Sul, Esther Cabado Modia. “A maioria dos estressores de fim de ano é desnecessária: saiba o que te deixa deprimido e o que te irrita e aprenda a administrar esses fatores.” Se a compra dos presentes de Natal em lojas abarrotadas, dias antes da festividade, por exemplo, causa angústia, antecipe-a. No caso das reuniões de família, a saída não é tão simples. “Decidir com quais parentes serão comemoradas as festas é fator de estresse no casal. Para quem tem de frequentar a família do parceiro, há ainda que lidar com a saudade do próprio grupo familiar, o que pode trazer certa melancolia”, comenta Kirschbaum. A solução é sentar e conversar, por vezes ceder e deixar-se surpreender pelos bons momentos que sempre podem surgir.
Esvazie o copo
As pressões esperadas e inesperadas da época podem trazer dores insuportáveis. Nesta hora, uma boa conversa franca sobre o que está sentindo e como poderá resolver os problemas vale mais do que um conselho de amigo. Se abrir com alguém que te escute e não te julgue pode trazer boas respostas. “Ter um ombro amigo que facilite o desabafo permite que o copo se esvazie um pouco. Assim dá para suportar a carga adicional que sempre chega no fim do ano”, relata Carlos Correia, voluntário da ONG de apoio emocional Centro de Valorização da Vida.
Sob estresse
Confira abaixo algumas situações angustiantes de fim de ano e lide com cada uma delas:
• Objetivos não cumpridos
Fazer as listas de fim de ano é uma boa maneira de ver com clareza as metas pessoais. No entanto, é preciso elencar aquilo que é factível. “Se eu coloco na lista o que quero fazer daqui a 20 anos, pode ser muito longe. Se eu digo que eu quero ser feliz, é muito vago. É interessante pensar no que preciso para ser feliz e, mais ainda, para ser feliz neste ano”, sugere a pesquisadora Esther Modia.
• Época de comparações
Ao analisar o que foi conquistado e o que não pôde ser concluído (ou às vezes nem começado) durante o ano, surgem comparações no campo profissional ou pessoal. Segundo Esther Modia, às vezes a comparação não vem dos familiares, mas do próprio indivíduo. É um bom momento para recriar os planos e começar novamente.
• Renove os planos
Ao fazer novos planos, as expectativas são renovadas, mas também aumentam as incertezas e o temor pelo desconhecido. “Tomar decisões envolve riscos. Se você escolhe fazer uma coisa, deixa de fazer outra. O risco da perda gera novas tensões nesta época”, explica o psicólogo e psicanalista, Roberto Kirschbaum. Saiba que este período não significa um fim. Essa angústia de fim de ano pode impedir que a pessoa consiga ver que o ano-novo significa também uma nova possibilidade.
• Adiantamento do trabalho
Antes de chegar ao esperado recesso, o ritmo de trabalho aumenta para adiantar as atividades. Muitas pessoas sentem-se mais cansadas nas semanas que antecedem as festas do que ao longo dos últimos meses antes do fim de ano. E, da noite para o dia, o ritmo antes frenético se transforma em um marasmo. As lojas não abrem mais, as ruas e escolas ficam vazias, causando uma monotonia na rotina. Aproveite para descansar física e mentalmente.
• Família
Decidir em qual família serão feitas as festas é algo muito estressante. As pressões que os conhecidos impõem pesam antes mesmo da chegada à festa. “Pense: eu gosto mesmo de reunir todos da família? Isso me deixa bem? O encontro nunca é questionado, é de certo modo uma imposição”, comenta a professora de Psicopatologia do Departamento de Psicologia da UFPR, Maria Virginia Cremasco. Decidir em conjunto é a melhor forma. A escolha demanda conciliar vontades, por vezes ceder e combinar aquilo que beneficia a todos. Se a vontade for passar sozinho ou com amigos, o importante é se sentir bem.
• Situações imprevisíveis
Ao lado das situações previsíveis deste período do ano, por vezes é preciso lidar também com as imprevisíveis. “Um resultado ruim no vestibular ou nas notas, os planos para a viagem que não deram certos. São pressões de todos os lados e que acabam transbordando o copo nesta época”, afirma o voluntário da ONG de apoio emocional Centro de Valorização da Vida, Carlos Correia.
• Perda de entes queridos
“Para uma família enlutada, toda essa injunção da necessidade de comemorar, de a família estar unida, é algo complicado. Fica difícil ver o mundo inteiro comemorando aquilo como uma felicidade quando é uma grande tristeza que eles têm de viver”, aponta Maria Virginia Cremasco. A opção pelo isolamento é normal. “Como eles estão tristes ou não estão tão eufóricos quanto ‘deveriam’ estar no fim do ano, eles também não têm como dividir esta tristeza”, afirma.
• Minissíndrome da aposentadoria
O alívio das férias logo dá lugar a outra preocupação de fim de ano. Acostumados com a rotina do trabalho, escola, horários cronometrados, o recesso aumenta o tempo em que a família toda passa junto, causando uma espécie de minissíndrome da aposentadoria. Para algumas pessoas, é preciso muita compreensão e conversa neste momento, especialmente porque tão logo o ano velho se acaba, surgem outras questões a serem resolvidas no início do ano que entra.